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Sombra e água fresca


Foto de Pixabay


Depois de um tanto pensar, decidi por criar uma lista com a temática de férias. Depois de quase três anos de uma pandemia que ainda não acabou totalmente, podemos ter as férias mais tranquilas até então (para aqueles que tiraram férias). Particularmente, eu estou adorando esse um mês de relativa tranquilidade depois de um ano bem denso e cheio de coisas e acontecimentos. Acredito que para grande maioria os últimos anos foram uma loucura que pede umas férias para dar aquela relaxada. Pensando nisso, preparei uma lista para ajudar a relaxar, mesmo que por um dia. Como férias no Brasil também é sinônimo de festa, são músicas animadas para curtir esse breve momento de calmaria.


Nos anos 1950s dois irmãos de origem italiana formaram uma dupla de música instrumental. Santo e Johnny Farina não era uma simples banda de Rock and Roll da época ou uma das novas bandas de Surf Rock que estava começando a surgir no cenário musical entre o fim de 1950s e o começo de 1960s. A proposta de Santo & Johnny era bem inovadora e única. Mesmo sentindo suas origens no Rock e Surf, sua música instrumental era calma, alegre e até pré-psicodélica, eu diria. A guitarra havaiana (Lep Steel), instrumento tocado por Santo, realmente surgiu no Havaí entre o fim do século XIX e começo do século XX sendo uma modificação do violão espanhol que foi sendo alterado até se tornar uma espécie de guitarra elétrica. A popularidade do instrumento veio nos anos 1940s para 1950s sendo adotada por diversos músicos e bandas de Country. Não servindo unicamente a um gênero, mas as maiores referências musicais foram justamente dentro do Country. Contudo, essa duplinha do Brooklyn trouxe uma roupagem completamente nova. Sempre falo para as pessoas que vou apresentar as músicas dessa dupla que é como se fosse a trilha sonora para curtir as férias na Fenda do Biquini (nesse caso, não falo sobre o real Atol de Biquini que foi usado para testar bombas atômicas no pacífico, mas sim a cidade submarina do desenho de Bob Esponja que é uma grande sátira aos testes nucleares daquela região). Em diversos momentos em que eu estava triste ou estressado ou até mesmo só querendo relaxar, eu colocava seu maior sucesso “Sleep Walk” em looping por horas (se acha fácil versões em looping dessa música por 1, 2 e até 12 horas). Então, vá para uma praia, beba sua água de coco, coma sua ptitinga e tome seu drinque de abacaxi e relaxe com Santo & Johnny.


Santo & Johnny – Sleep Walk



Já ouviu falar de Calipso? Não estou falando daquela banda do Pará que até tem influência de Calipso mesmo, mas sim do gênero musical afro-caribenho que surgiu no começo do século XX e se tornou popular, principalmente na região caribenha, entre as décadas de 1940s e 1960s. É um estilo musical leve, dançante, divertido, tropical e gostoso. Teve importância significante na composição do Ska e por consequência do Reggae. Quando escuto Calipso, gênero que me tornei apreciador há cerca de 10 anos quando comecei a pesquisar sobre música jamaicana e caribenha, eu me imagino dirigindo um Cadillac Eldorado 1959 ou um Ford Fairlane 500 Skyliner 1957 conversíveis com um chapéu panamá e camisa de botão floral aberta enquanto dirijo por uma orla paradisíaca caribenha. Escolhi Charlie Binger and His Quartet com “Jamaica is the Place to Go”, pois além de ser uma ótima propaganda sobre a Jamaica, é um ótimo representante dessa musicalidade tão agradável.


Charlie Binger and His Quartet – Jamaica Is The Place To Go


As pessoas nunca adivinham ou até não acreditam que a minha música favorita de todas é “Brown Eyed Girl” de Van Morrison. Nascido George Ivan Morrison, Van Morrison nasceu em Belfast e logo assumiu sua paixão pela música começando pelo Jazz. Sua musicalidade vinha de diferentes influências entre Rock, Blues, R&B, Soul, Jazz, Pop, Folk e Country. Conheci Van Morrison através do show The Wall de 1990 em Berlin, mas só vim conhecer sua carreira na minha adolescência. Lembro que existiam músicas que marcaram bem determinado momento da minha adolescência por diversos fatos importantes naquele período como minhas primeiras Machanot centrais. Quando escutei “Brown Eyed Girl” pela primeira vez, uma emoção muito calma e alegre envolveu minha alma de forma muito gostosa. Eu escutava essa música e me passava uma certa paz e felicidade como se eu estivesse em férias, ou como eu gostava de brincar, férias em Palm Springs. Eu me imaginava em um fim de tarde alaranjado em alguma praia tranquila cheia de amigos brincalhões. É uma música bonitinha e tranquila que passa até uma certa inocência com paixão juvenil.


Van Morrison - Brown Eyed Girl


Vinicius de Moraes é uma verdadeira lenda musical brasileira e falar muito sobre ele é “chover no molhado”. Falando de forma exagerada, me recuso a acreditar que algum brasileiro não conheça sua obra mesmo que superficialmente ou pelo menos tenha ouvido falar. Ele não era só cantor e compositor, mas era poeta, dramaturgo e jornalista, além de ser um dos maiores boêmios de seu tempo. Carioca, foi um dos maiores nomes da Bossa Nova e fez diversas parcerias com grandes nomes como Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque, Nara Leão e Carlos Lyra. Como ninguém é perfeito, quando jovem e se graduando em Ciências Jurídicas e Sociais, fez parte do Movimento Integralista, o fascismo brasileiro. Não sei dizer ao certo as opiniões políticas de Vinicius de Moraes, mas o movimento integralista agregou diversas pessoas com pensamentos diferentes unidos por um ultranacionalismo romântico, muitos viram a grande besteira que estavam fazendo e romperam completamente com esse movimento maléfico (importante frisar que o movimento integralista contava com muitos antissemitas como a maioria dos movimentos fascistas). Interessante que houve certa perseguição por parte da Ditadura Militar contra ele não por questões diretamente políticas, mas por seu comportamento boêmio demais.


Uma coisa que admirava em Vinicius era justamente seu jeito fanfarrão e boêmio. Ele tinha cara de ser uma ótima companhia para tomar umas numa mesa de bar com violão e papo furado. Eu gostei mais dele depois de ver um vídeo dele e Tom Jobim muito bêbados falando que o cachorro é o melhor amigo do homem e uísque é o cão engarrafado. Porém eu nunca fui muito fã de Bossa Nova, não por achar ruim, mas por achar muitas das músicas chatas e um ar um tanto elitista, mas há mais ou menos 10 anos, eu estava numa festa de família de uns amigos e uma hora tocou um show dele com Toquinho em 1974, caso não esteja enganado. E show começa com o famoso “Poema do Dia da Criação” também conhecido como “Porque Hoje É Sábado”. É um poema fantástico que foi musicado quase como um Jazz nesse show e desde então passou a ser executado na vitrola de casa quase todos os sábados por muitos anos.


Vinicius de Moraes – Dia da Criação


Mantendo um pouco o clima, porém agora indo para algo menos refinado e mais “povão”, não poderia deixar de falar do meu sambista favorito, Bezerra da Silva. Nascido de uma família pobre de Recife em 1927, Bezerra fugiu em um navio de carga transportando açúcar para o Rio de Janeiro para encontrar seu pai e tentar ter uma vida melhor com 15 anos. Porém mesmo encontrando o pai, a vida não foi nada fácil. Seu pai que já havia abandonado a família, teve desavenças com ele e logo foi morar só. Se tornou pintor de parede. No final dos anos 1940s e começo de 1950s, Bezerra descobriu sua paixão pela música, principalmente o samba de coco assim como fez parte da banda do bloco de carnaval Unidos do Cantagalo, morro em que morava. Como bom malandro que era, era alvo da polícia e foi preso diversas vezes até acabar perdendo o emprego e passou a morar nas ruas. Em um momento de crise, tentou o suicídio, mas foi salvo e acolhido por um terreiro de umbanda. No final da década de 1950s, começou a trabalhar como músico contratado pela Copacabana Discos e nos meados de 1960s ele começa a se profissionalizar. Em 1969 ele grava seu primeiro compacto ainda de samba de coco, que seria seu gênero nos primeiros álbuns até firmar sua identidade no partido alto. A verdade que Bezerra era um grande músico e compositor, porém a grande maioria das suas músicas não eram dele, mas de um grupo de amigos moradores do morro do Cantagalo que sempre se juntava para fazer aquele churrasco animado. Podem falar o que quiser, mas para mim e para muita gente, ele foi o maior sambista que já houve e suas músicas são as mais verdadeiras já feitas. Fico bastante chateado pela grande fama superficial das suas músicas como simples músicas de malandro, sendo que muitas tem uma crítica social de forte impacto.


Para trazer alegria e animar aquele churrasquinho com cervejinha gelada (ou um suquinho), Bezerra da Silva é o sujeito mais indicado. E recomendo fortemente que assista o documentário presente no Youtube “Onde a Coruja Dorme” que não fala exatamente sobre ele, mas sobre a galera dela.


Bezerra da Silva - Defunto Caguete


Bebeto é do tipo de músico que chegou a fazer sucesso, mas deu aquela sumida e caiu no ostracismo midiático. Ele, junto a Jorge Bem Jor, foi um dos maiores nomes do samba rock tendo muito destaque entre 1970s e 1980s. Samba rock, em geral, é um ótimo gênero para curtir umas férias, fazer um passeio de escuna, fazer um churrasco e anima qualquer tipo de festa. Perceba, assim como outras músicas colocadas aqui, que se trata de um som ao mesmo tempo que animado e divertido, tranquilo e relaxante, o que julgo ser o melhor para curtir aquelas férias marotas. Claro que não existe uma cartilha para esse tipo de coisa e a gente deve ouvir o que sentimos vontade, mas eu creio que existem climas propícios. Tem aqueles que preferem curtir as férias em total relaxamento e aproveitamento ocioso em casa sem sair da cama, como tem aqueles que querem festas intermináveis com um turbilhão de emoção e energia. Porém, numa espécie de “tipo ideal musical” para férias, criei um certo padrão abrangente.


Uma curiosidade, já pararam para analisar como “Minha Preta” de Bebeto tem uma introdução MUITO parecida com “Misty Morning” de Bob Marley?


Bebeto – Minha Preta


Desculpe a “ignorância”, mas eu não conheço muitos artistas e bandas da Espanha, porém existe uma que gostaria de destacar chamada Barrabás. Formada em 1971 em Madrid, Barrabás misturava Rock, Funk, Soul e Disco com um “quêzinho” psicodélico dependendo da música. Um grande destaque da banda, além de fazer certo sucesso nas décadas de 1970s e 1980s, é o jeito autêntico como se consegue executar suas músicas com essas influências distintas. A banda é espanhola, mas contava com um tecladista português e um percussionista cubano, o que dava todo um charme latino em sua musicalidade sem necessariamente ser uma banda de gênero musical latino. A ideia dessa música é mais pra animar sua festinha de ano novo ou de veraneio. A proposta é tanto poder deitar numa espreguiçadeira e relaxar em uma piscina, quanto animar uma festa dançante, quanto ficar de bobeira em casa pensando como queria uma festinha ou uma piscininha.


Barrabás – Woman


Uma das melhores formas de relaxar para mim, não querendo ser metido à besta, é escutar um jazzinho mais calmo ou melancólico, geralmente mais puxado para o Cool Jazz. Aquele sax maroto, aquele pianinho safado, aquele baixo marcante, aquela bateria sutil e aquele estilo envolvente que te prende e te leva pra outra dimensão. Falar de Jazz é como falar de Rock, seu nome por si só não explica direito pois trata-se de um conjunto de estilos e subgêneros bem variados e distintos com elementos em comum. Assim como seu sobrinho Rock, Jazz abrange muita coisa, de umas mais animadas e agressivas a umas mais calmas e tristes. Eu sou um grande amante de Jazz muito mais do que de Blues, por exemplo. E eu não quero tirar onda, mas escutar um Jazz bem relaxante enquanto aprecia um bom Bourbon é um dos melhores prazeres da vida. Entre vários artistas que pensei em colocar, decidi favorecer um “irmão” nosso e colocar Gilad Atzmon.


Gilad Atzmon Trio – My Old Flame


Acharam que o bom e velho Metal ia ficar de fora dessa lista? Pois bem, vai ter Metal, mas não em ritmo de Metal. Há uns 15 anos eu conheci através de um amigo um projeto com vários músicos distintos chamado Combo de La Muerte. Trata-se de uma banda que dá uma roupagem meio Jazz Latino para clássicos do Metal como Judas Priest, Iron Maiden, Death, Megadeath, Black Sabbath e muitos outros. Quando ouvi o conceito, achei estranho e duvidei que seria bom, mas quando eu ouvi, fiquei apaixonado como aquelas músicas tão rápidas e agressivas foram transformadas em algo completamente diferente e continuaram a serem ótimas. Até vou confessar que do disco que ouvi, tem músicas que prefiro na versão deles do que na original. De todas, a que eu mais gostei foi uma versão fantástica de uma música do Slayer.


Combo De La Muerte – South of Heaven



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