Histórias da Nossa Comunidade
David Paves
DE SALVADOR PARA SÃO PAULO
08 DE JANEIRO 1.995
Hoje, Jaime e Rosinha comemoram trinta e sete anos de casados e dona Mira oitenta e um anos de idade, que seja até os cento e vinte, amém.
Ainda temos um tempo para irmos ao Aeroporto, e às 9h00 vamos todos ao cemitério d para homenagear a um grande ativista da comunidade judaica baiana, Reuven Muller, pai de Ramiro, falecido em 1975. O Sr. Reuven foi pai de seis filhos: Oséas - já falecido, José, Telsa, Sara, Ramiro e Waldemar, conhecido por Bebo. Na cerimônia, anoto a presença de José e sua esposa Mariinha, Ramiro e Helena, Sara – que é viúva, e Waldemar. Telsa está em Israel, morando com a filha Claire, no kibutz de Claire – Ein Gedi.
Dos netos, Sheila e Heidi - filhas de Ramiro, Célia e Lully – filhos de Sara, Roberto – filho de Telsa e Jorge – filho de José.
Antes da cerimônia percorro novamente o local. A casa da administração, com suas duas salas contiguas, onde, numa delas está montada uma exposição sobre o Holocausto e Israel, de autoria do jornalista Mauricio Naiberg. Ao lado, a casa do caseiro e o velório. No restante, as alamedas, com suas sepulturas por onde passa Dorinha que, ainda uma vez, visita o túmulo de seus pais. Quanto ao Sr. Reuven, a homenagem se fará com o descerramento de sua fotografia, colocado em lugar de honra do hall de entrada. Sob o quadro, um estrado para o livro de presença dos visitantes, ladeado por dois candelabros altos, esculpidos em madeira.
Jaime, em seu discurso como Presidente da SIB, destaca o trabalho comunitário do Sr. Reuven, desde os anos de 1920 até seu falecimento em 1975, em pleno Rosh Hashana. José Muller, o filho mais velho, descerra o retrato e em nome da família, seguido da fala de Célia Adler, sua neta, professora de português e que, muito emocionada, lembra o trabalho comunitário de Reuven Muller, concluindo: “é uma grande honra ter tido um avô assim.“.
Ao final, Jaime me conta que o Sr. Reuven era de 1892, tendo falecido aos 83 anos. Despedidas finais, e dali Jaime e Rosinha nos levarão ao Aeroporto Dois de Julho .
Sheila não esqueceu de trazer o meu sidur, o que me deixa feliz.
Seguimos, pois, pela nova Avenida Paralela, passando por novos bairros que estão aparecendo. Vejo edifícios com a nova arquitetura baiana arrojada, na fachada estão aplicados materiais com cores vivas, quentes, bem ao estilo de uma cidade ensolarada e praieira. São tons brancos, vermelhos, amarelos, numa mistura equilibrada. São áreas que estão se valorizando e que terão grande valor agregado nos próximos dez a quinze anos.
De passagem pergunto sobre meu colega de turma do Mackenzie, Andréa Foá, a quem vi na cerimônia, mas com quem não tive tempo de conversar, pois ele saiu rapidamente. Na troca rápida de palavras me informou que tem duas filhas, ambas seguindo a carreira do pai. A primeira já está formada e trabalha com ele, enquanto a segunda está no segundo ou terceiro ano da faculdade. Segundo Jaime, Andréa, que é seu secretário na diretoria da SIB, continua com a firma de fundações e tem uma empresa de pré-moldados que produz estacas. Todas as fundações das obras de Jaime são calculadas e executadas por Foá. O nome Andréa sempre deu confusão.
Henrique, meu cunhado, por exemplo, imaginava Andréa como mulher. Judeu egípcio ele e Ralph Foá se instalaram em Salvador nos anos 1966/1967 como representantes da empresa de estacas e fundações – Sobraf, pois Ralph também era engenheiro. Depois, Ralph voltou para São Paulo e Andréa foi ficando e acabou se adaptando ao ritmo baiano e à sua comunidade. Fico a me lembrar de Andréa Foá no acampamento do Cabuçú, sem nada comer além de frutas e chá, pois no acampamento não havia comida casher e pedindo aos alunos judeus que estavam no acampamento que viessem a tarde em seu quarto para que ele pudesse dizer “kadish” por sua mãe.
Já estamos no meio do caminho quando um congestionamento, típico de domingo, nos obriga a seguir pela Orla. Mais uma vez sentimos a brisa, e nos extasiamos com o verde profundo do mar de Salvador, enquanto Jaime comenta: “ Muito justa a homenagem ao Sr. Reuven, pois é importante que as novas gerações conheçam um pouco da história dos homens que trabalharam pela comunidade judaica de Salvador. Germano Tabacoff, nosso vereador, foi muito feliz em obter o sancionamento da Lei que denomina Rubem Muller a praça frente ao nosso cemitério. Isso me lembra como papai e o Sr. Reuven se davam, diz Dorinha. Era quase como num casamento, rusgas, beijos e abraços. De repente algum acontecimento na Sinagoga, no Shabat e dali vinha papai amuado, mamãe tendo de fazer compressas de álcool para acalma-lo. Aí papai jurava para quem quisesse ouvir que nunca mais falaria com o Reuven, e ficava mastigando sua raiva e toda família tinha de ser coesa nesse episódio. Assim era durante o resto da semana, inclusive no domingo, quando seguia com Jaime pelas ruas de Salvador cobrando seus clientes, papai não deixando de se queixar contra Reuven. E de repente, sem mais aquela, papai mudava de humores, o discurso era outro, “coitado do Rubem, com tantos problemas para cuidar da família tão numerosa “ e pronto, nem tinham se passado quinze dias e tudo voltava às boas, papai e o Sr. Reuven no maior dos amores. O Sr. Saul e o Sr. Reuven eram os dois que preparavam os meninos para o Bar Mitzvá e eram os que sabiam ler a Torá. Com a morte de papai em 1974 e do Sr. Reuven em 1975, a bandeira foi passada para Apsan. Para o Bar mitzvá de Marcio quem o preparou foi o Sr. Reuven mas Leo e Milton foram preparados por Apsan.
Interessante que do preparo de Milton me lembro bem de um pequeno detalhe que cheguei a comentar com Apsan. Quando Milton começou a colocar o tefilim do braço, notei que ele o enrolava de dentro para fora.- “ Mas isso, disse eu, é costume sefaradi. Os ashquenazim enrolam de fora para dentro.” Sorrindo, Apsan me respondeu : Caro David. Quem sabe assim, ele vai aprender a doar e não somente guardar?”.
Engoli em seco.
Não é que ele estava certo?
Continuamos a rodar em direção ao Aeroporto, mais a frente o local onde existe a rinha de galos, junto ao tal do hotel cujo proprietário Jaime conhece. Adiante um restaurante cujo nome é mesmo para chamar a atenção : “ Kimukeca “, desse jeito com essas letras.
E como retrospecto geral, Dorinha ainda se queixa que “não tomamos o sorvete da Ribeira nem procuramos o sorvete de cilindro quando descemos em Itaparica, na saída do ferry.
”Dessa última queixa ainda me vem a memória nossa viagem a Itaparica, no ano 1981, primeira vez que ali estive. Mal descemos e Dorinha saiu a procura do tal sorvete de cilindro, paixão de sua infância, quando passava férias numa pensão ali por perto.
Logo o chamado de um sorveteiro, chocolate, coco chocolate , baunilha “ e eis Dorinha a comprar o cilindro e sua decepção: não tinha mais o sabor da infância, para sempre guardada no fundo da memória.
Agora estamos indo em direção a Itapoã, em marcha reduzida, e aos poucos se ouvem cantares de vendedores baianos:-“ Camaraaaão, camarão freeeesco.! “ ou então -“ olha a cebola ... cebola freeesca! “.
“ Gente, volta a falar Dorinha, está parecendo meus tempos de criança. Lembro-me do freguês montado no seu jegue, dois enormes balaios de lado, dizendo :- Eu tenho ceboooola .... cebola freesca“ cantilena que começava na entrada da rua e só terminava no fim dela, o jegue cercado pelos moleques que repetiam ;-“ eu tenho cebooola ......cebola pooodre !” e era a corrida do verdureiro atrás dos meninos. Depois se seguia o :” laraaanja ......eu tenho laranja doooce” , ou então o : “ eeee ........acarajé! “.Outro dia era o : - “ verdureeeiro .......verduuuras ! “, um senhor que carregava um tabuleiro com uma armação. Parava em um canto, montava o tabuleiro e expunha a mercadoria para quem quisesse comprar: cenoura, vagem, repolho, chuchu, couve, maxixe, quiabo, abobora, tomate. A venda e a compra eram diárias, pois dona Feiga não tinha geladeira para guardar, isso até os anos cinquenta. Interessante é que os baianos compravam muito pouca verdura, mais disputadas pelas senhoras judias que moravam por ali. E o acaçá, gente, o acaçá de milho, que mamãe comprava porque era uma comida fooorte, para que a gente crescesse gordinha e corada, como as mães queriam que seus filhos fossem gordinhos e corados, ao contrário das famélicas crianças das aldeias da Polonia e Lituania. ".
O carro continua rodando, agora a praia de Plakafor, depois virá o Jardim de Alá. Por que Plakafor ? Porque, junto a essa praia, à beira da avenida, a Ford instalou uma placa de propaganda e logo os jovens passaram a marcar seus encontros de domingo, ou nas férias, na plakafor. Nos anos sessenta, quando vínhamos para Salvador a plakafor continuava impávida indicando sua presença. Já hoje, o que vejo são lojas, uma delas encimada pelos dizeres Plakafor.
Não param por aí as últimas de Salvador. Jaime comenta:
“Amanhã à tarde estarei na Prefeitura com Jacob Sporer, cunhado de Miguel Kertzman, o atual secretário de Transportes. Ele é quem nos acompanhará na visita a Prefeita Lídice. -“ E já que falamos dos Kertzman, ontem encontrei com dona Lola, a viúva do Sr. Marcos Kertzman , um dos “ricos “ da coletividade, que fez questão de me desejar um feliz 1995 e que eu continue a ser o Presidente da SIB até os cento e vinte anos”. Benção, ou maldição?, pergunto eu.”
Minha curiosidade não para:
- “Quem poderia ser o novo presidente da SIB ?”
E Jaime responde :
- “Germano Tabacoff, atual vereador, seria um bom nome, mas duvido que ele venha a aceitar pelos trabalhos em que está envolvido.
Outro seria Israel Portnoi, atualmente dono de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos, daqueles doadores que põem a mão no bolso, mas não estão dispostos a fazer o trabalho comunitário. Por exemplo: A maioria dos sepultamentos em nossa comunidade são gratuitos, isto é, ao contrário de São Paulo, não se paga para se ter uma sepultura. Com isso, parte das verbas da SIB são desviadas para a conservação do campo santo. A SIB lançou uma campanha específica para que a coletividade passasse a contribuir com uma verba mensal para a manutenção do cemitério e hoje, na cerimônia em que estivemos, Portnoi foi um dos primeiros que se dispôs a contribuir efetivamente para isso”.
Já passamos por Itapuã, agora o carro entra no bambuzal que nos leva ao Aeroporto. A despedida se faz na entrada do aeroporto, seguido de um longo abraço.
Obrigado, cunhados.
Horário cumprido, embarcamos para Petrolina, de lá para Brasília. Revejo as anotações e passo, por curiosidade, a marcar o nome de todos os personagens que passaram por esse meu Diário de Viagem a Salvador De repente, um conhecido entra no avião. Sem muito alvoroço senta-se à minha frente, tendo ao lado uma moça que certamente conhece, pois logo a cumprimenta. Decididamente é o coroamento dessa viagem. Á minha, esquerda, num lugar de classe econômica, diretamente entrando pelo aeroporto de Brasília, sua excelência o senhor Ministro de Esportes – Edson Arantes do Nascimento – o Pelé. Nada de primeira classe, nada de executivo, nada de seguranças a rodeá-lo. É ele, Pelé. Cutuco Dorinha que também não acredita no que vê, sussurro que vou pedir um autógrafo, ela me chama de louco. Mas meu sangue de jovem louco dos anos cinquenta voltou a correr em minhas veias e me vejo entrando nos camarins da Cultura Artística ou do Municipal atrás dos autógrafos de gente famosa. Lembro da coleção que tenho em casa, em programas distribuídos na entrada desses teatros: Eleazar de Carvalho, Villa Lobos, Marquerite Long, Dizzie Gillespie, Magda Tagliaferro, Nathan Schwartzman, Leon Kanievsky, Diogo Pacheco, Souza Lima e tantos outros. Decididamente, ele não me escapa. - “Sr. Ministro, poderia me dar seu autografo?” digo eu, Dorinha encolhida no seu canto.
- “Com todo prazer”, e pega no caderno que lhe passo, inclusive caneta, e cá está seu autografo.
Duvidam?
Pois não é que após a descida do avião em Congonhas, foi todo mundo fazer fila para conseguir um autógrafo?
Pena só que não tirei fotografia.
Em tempo: sim, o autografo ainda esta comigo. Simples e direto :
“ Ao David um abraço do Pelé”




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