Rosh Chodesh Tamuz: dois dias para aprender a ver de novo
- Marcos Wanderley

- 11 de jun.
- 3 min de leitura
Rosh Chodesh é sempre mais do que a simples entrada de um novo mês. Ele é o sinal de que o tempo, dentro da tradição judaica, não é uma linha fria e repetitiva, mas um movimento vivo de renovação. A lua diminui, quase desaparece, e depois volta a crescer. Assim também acontece com Israel: há momentos de ocultamento, crise e silêncio, mas nunca de desaparecimento definitivo.
Quando Rosh Chodesh é celebrado em dois dias, como ocorre em Tamuz (dia 14 - por do sol; 15/6 e 16/6//2026), este ano, a explicação prática vem do calendário: quando o mês anterior possui trinta dias, o trigésimo dia já recebe santidade de Rosh Chodesh, e o dia seguinte é o primeiro dia do novo mês. No caso de Tamuz, temos o 30 de Sivan e o 1 de Tamuz. Mas, além da explicação técnica, há uma mensagem espiritual profunda: às vezes, a renovação não acontece de uma vez. Há processos que precisam de dois momentos: primeiro, despedir-se do ciclo anterior; depois, entrar de fato no ciclo novo.
Esse detalhe é muito significativo. O primeiro dia de Rosh Chodesh ainda carrega algo de Sivan, o mês da entrega da Torá. O segundo já pertence totalmente a Tamuz, mês marcado por desafios, que culmina no jejum de 17 de Tamuz e no início das Três Semanas, período de reflexão sobre destruição, exílio e reconstrução. É como se a tradição nos dissesse: leve a luz de Sivan para atravessar as sombras de Tamuz. A Torá recebida em Sinai não deve ficar apenas no momento elevado da revelação; ela precisa nos acompanhar também quando a história se torna difícil.
Tamuz é um mês delicado. A Mishná recorda que, em 17 de Tamuz, ocorreram acontecimentos dolorosos para o povo judeu: as Tábuas foram quebradas, o sacrifício diário cessou, as muralhas de Jerusalém foram rompidas, a Torá foi queimada e uma imagem idólatra foi colocada no espaço sagrado. Esses fatos apontam para uma mesma ferida: quando a aliança é esquecida, quando o centro espiritual se enfraquece, as muralhas externas acabam cedendo também. Antes da queda de uma cidade, há sempre uma rachadura interior.
A visão cabalística de Tamuz aprofunda ainda mais essa leitura. Segundo a tradição ligada ao Sefer Yetzirá, cada mês possui uma força espiritual específica, e Tamuz está ligado ao sentido da visão. Isso é muito simbólico. O problema de Tamuz não é apenas o que acontece diante dos olhos, mas a forma como olhamos para o que acontece. O bezerro de ouro, que antecede a quebra das Tábuas, nasce de uma visão distorcida: o povo vê a demora de Moshê e transforma a ausência momentânea em desespero. A visão perde profundidade; o olhar deixa de confiar.
Por isso, Tamuz nos ensina que nem todo olhar enxerga de verdade. Há quem olhe e veja apenas perda. Há quem olhe e veja oportunidade de retorno. Há quem olhe para a rachadura e só enxergue ruína; mas a tradição judaica nos convida a olhar para a mesma rachadura como um chamado à reconstrução. A Cabalá não trata a visão apenas como função dos olhos, mas como direção da alma. Ver bem é perceber onde D’s ainda chama, mesmo quando a realidade parece escura.
A ligação de Tamuz com Reuven também é expressiva. O nome Reuven pode ser entendido como “vejam, um filho”. Sua própria identidade carrega a ideia de olhar. No entanto, a Torá mostra que ver não significa apenas perceber algo externamente; significa reconhecer a dignidade, a presença e o destino do outro. Em Tamuz, somos convidados a corrigir o olhar: olhar menos com julgamento e mais com responsabilidade; menos com pressa e mais com profundidade; menos com medo e mais com emuná.
Assim, os dois dias de Rosh Chodesh Tamuz podem ser compreendidos como duas etapas de preparação espiritual. No primeiro dia, ainda ligado a Sivan, recebemos a lembrança da Torá como luz. No segundo, já dentro de Tamuz, somos chamados a levar essa luz para o campo da fragilidade humana. A renovação do mês não elimina imediatamente as dificuldades, mas muda a maneira de atravessá-las.
Tamuz começa com a lua nova, quase invisível. E talvez essa seja a sua grande lição: nem toda renovação aparece com força no início. Algumas mudanças começam pequenas, discretas, quase escondidas. Mas, se forem cuidadas, crescem. O povo judeu aprendeu a não desprezar começos frágeis. A lua pequena de Rosh Chodesh anuncia que ainda haverá plenitude.
Que este Rosh Chodesh Tamuz nos ensine a renovar o olhar. Que possamos enxergar nossas rachaduras sem perder a esperança, reconhecer nossos erros sem abandonar a dignidade e transformar memória dolorosa em responsabilidade espiritual. Porque, quando o olhar é purificado, até o mês que recorda quebras e cercos pode se tornar caminho de retorno, reconstrução e luz.
Chodesh Tov Umevorach.
Referências:
● Mishná Ta’anit
● Talmud Bavli, Rosh Hashaná
● Mishneh Torah, Hilchot Kiddush HaChodesh
● Sefer Yetzirá
● Tradição cabalística sobre os meses judaicos

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