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Sukot

24 de set.
8 min de leitura

A alegria que habita o essencial


Neste ano, o primeiro dia de Sukot coincide com o Shabat, reunindo duas experiências centrais da vida judaica: a alegria da festa e a serenidade do descanso sagrado. Sukot nos convida a deixar, por alguns dias, a segurança das construções permanentes e habitar uma morada simples, coberta por ramos e aberta para o céu. O Shabat, por sua vez, ensina-nos a interromper nossas atividades e reconhecer que a existência não depende somente do esforço humano, mas também da bondade e da providência de D’s.


A sucá parece frágil, mas transmite uma mensagem fortalecedora: a verdadeira proteção não está apenas nas paredes que construímos, nos bens que acumulamos ou nos planos que fazemos. A segurança mais profunda nasce da confiança em D’s, da solidariedade e da capacidade de reconhecer o valor das bênçãos essenciais.


Ao recordar as moradas utilizadas pelos filhos de Israel durante a travessia do deserto, Sukot transforma a memória histórica em aprendizado espiritual. O deserto era um lugar de incerteza, mas também de proximidade com D’s. Não havia estabilidade material, porém havia direção, cuidado e esperança. A sucá, portanto, não representa somente precariedade: ela simboliza a proteção divina que acompanha o povo mesmo nos caminhos mais difíceis.


A Mishná ensina que, durante os sete dias de Sukot, a pessoa deve fazer da sucá sua residência principal e considerar sua casa como temporária. Essa orientação não trata apenas de uma mudança física. Ela nos convida a deslocar também o coração: sair da autossuficiência e entrar no espaço da gratidão; abandonar, ainda que temporariamente, a ilusão do controle absoluto e aprender a receber cada momento como uma dádiva.


Como Sukot I ocorre no Shabat, não se tomam as quatro espécies nesse dia segundo a prática rabínica seguida atualmente. Essa suspensão não diminui a importância da mitzvá nem a alegria da festa. Ao contrário, recorda que o próprio Shabat constitui um sinal sagrado da aliança entre D’s e Israel. A santidade do dia encontra expressão no descanso, nas orações, nas refeições festivas, no estudo da Torá e na convivência dentro da sucá.


Sukot é chamada de Zman Simchatenu, “o tempo da nossa alegria”. Entretanto, a alegria judaica não significa ignorar as dores ou negar as dificuldades. É uma alegria amadurecida pela consciência de que a vida é transitória e, justamente por isso, cada bênção deve ser reconhecida. A sucá ensina que uma existência significativa não precisa ser construída sobre excessos. Muitas vezes, é sob uma cobertura simples, pela qual ainda podemos contemplar o céu, que enxergamos com maior clareza aquilo que verdadeiramente sustenta a vida.


Que este Sukot I, iluminado pela santidade do Shabat, renove em nós a confiança, a humildade e a gratidão. Que nossas sucot sejam espaços de acolhimento, paz e união; e que a alegria da festa alcance também aqueles que atravessam momentos de fragilidade e insegurança.


Comentários da Mishná Tratado Suká


O tratado Suká pertence à ordem Moed, dedicada ao Shabat e às festas. Seus cinco capítulos apresentam as normas da sucá, das quatro espécies e das celebrações realizadas no Templo de Jerusalém. Mais do que fornecer instruções técnicas, o tratado procura transformar Sukot em uma experiência integral: a pessoa entra fisicamente na sucá, segura as espécies da terra, participa das orações comunitárias e aprende a alegrar-se diante de D’s.


1 A construção da sucá


A sucá deve ser uma morada temporária, construída em local aberto, diretamente sob o céu. Não deve ficar sob uma árvore, varanda, telhado ou outra cobertura que impeça que o sechach seja considerado o verdadeiro teto da sucá.


A Mishná estabelece como requisitos fundamentais:

●       altura mínima de dez tefachim;

●       altura máxima, segundo a opinião aceita dos sábios, de vinte amot;

●       espaço interno mínimo suficiente para a permanência e a realização de uma refeição;

●       pelo menos três lados conforme as regras haláchicas;

●       quantidade de sombra produzida pelo sechach superior à luz solar que atravessa a cobertura.


Essas medidas mostram que a sucá precisa ser realmente habitável, mas deve conservar o caráter de morada temporária. Como a conversão de amot e tefachim em centímetros varia conforme o critério haláchico adotado, recomenda-se consultar a autoridade religiosa responsável quando houver dúvida sobre as dimensões.


2 O sechach


O sechach é a parte essencial da sucá e deve ser colocado depois de as paredes estarem devidamente preparadas. Para ser apropriado, o material precisa:


●       ter origem vegetal;

●       estar desligado da terra;

●       não ser alimento nem utensílio suscetível de impureza ritual;

●       não possuir cheiro desagradável;

●       estar suficientemente firme para não ser facilmente levado pelo vento;

●       produzir mais sombra do que sol no interior da sucá.


Podem ser utilizados bambu, galhos, folhas de palmeira, ripas adequadas de madeira ou esteiras fabricadas especificamente para essa finalidade. Não se utilizam metal, plástico, vidro nem vegetação ainda presa ao solo. É recomendável haver pequenas aberturas entre os ramos, permitindo contemplar o céu, desde que a luz solar não predomine no interior.


3 As paredes e a segurança


As paredes podem ser feitas de diferentes materiais, mas devem permanecer firmes e não balançar constantemente com o vento. Tecidos soltos precisam ser bem presos e, quando necessário, complementados por estruturas apropriadas. A sucá deve oferecer condições dignas e seguras para as refeições e para a permanência das pessoas.


4 Preparação e decoração


É costume ornamentar a sucá com frutas, flores, desenhos, tecidos e trabalhos que expressem gratidão pelas bênçãos recebidas. A decoração contribui para o princípio de hiddur mitzvá, o embelezamento dos mandamentos, mas não substitui os requisitos de validade da sucá.


Como Sukot I começa juntamente com o Shabat, toda montagem, fixação, decoração e instalação elétrica deve estar concluída antes do acendimento das velas. Depois do início do Shabat, nada deve ser pregado, amarrado, ajustado ou consertado.


5 Habitar a sucá


A Mishná determina que, durante toda a festa, a sucá seja tratada como morada principal e a casa como morada secundária. Na medida do possível e conforme as condições climáticas, de saúde e de segurança, transferem-se para ela:


●       as refeições;

●       o estudo;

●       as conversas familiares;

●       os momentos de descanso;

●       o convívio com convidados;

●       e também o sono, quando houver condições adequadas.


Não se trata apenas de visitar a sucá, mas de fazer dela o centro da vida familiar e espiritual durante a festa.


6 Refeições e bênçãos


Nas refeições com pão, fazem-se o Kiddush adequado, a lavagem ritual das mãos, a bênção de Hamotzi e a bênção de habitar na sucá:


Baruch Atá Adonai, Eloheinu Mélech haolam, asher kidshanu bemitzvotav vetzivanu leishev basuká.

Bendito és Tu, Eterno, nosso D’s, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste habitar na sucá.


Na primeira noite, recita-se também Shehecheyanu, agradecendo a D’s por nos ter conservado com vida e permitido alcançar novamente esse momento. Como Sukot I coincide com o Shabat, o Kiddush deve mencionar tanto a santidade do Shabat quanto a da festa, seguindo-se o sidur ou machzor adotado pela comunidade.


7 Chuva desconforto e impossibilidade


A Mishná ensina que, se a chuva começar a estragar a comida servida, torna-se permitido deixar a sucá. Esse exemplo demonstra que a Torá não exige que a pessoa permaneça em condições impróprias ou de sofrimento significativo.


Em caso de chuva forte, frio intenso, risco, enfermidade ou desconforto considerável, a pessoa pode estar dispensada de permanecer na sucá. Crianças pequenas, pessoas enfermas, idosos e quem cuida de alguém devem agir de acordo com suas condições e com a orientação religiosa apropriada. Quando a sucá voltar a oferecer condições adequadas, retorna-se a ela.


8 A hospitalidade


Sukot possui forte dimensão de hospitalidade. É costume receber familiares, amigos e pessoas da comunidade na sucá. Também se recordam simbolicamente os Ushpizin, os convidados espirituais ligados à história de Israel. Essa hospitalidade não deve permanecer apenas no campo simbólico: a sucá deve inspirar o acolhimento de quem vive sozinho, dos recém-chegados e daqueles que enfrentam dificuldades.


9 As quatro espécies


A mitzvá das quatro espécies reúne:

●       lulav — ramo de palmeira;

●       três hadassim — ramos de murta;

●       duas aravot — ramos de salgueiro;

●       etrog — cidra.


A Mishná analisa cuidadosamente as condições de validade de cada espécie. Em termos gerais, elas devem estar frescas, completas, pertencentes legitimamente a quem cumpre a mitzvá no primeiro dia e adequadas ao uso ritual. Uma espécie roubada, seca ou gravemente danificada não deve ser utilizada. O lulav, os hadassim e as aravot são reunidos, enquanto o etrog permanece separado.


10 As quatro espécies no Shabat


Quando Sukot I ocorre no Shabat, as quatro espécies não são tomadas. A determinação rabínica protege a santidade do Shabat e evita que alguém as transporte em domínio público para procurar orientação sobre a mitzvá.


Neste Sukot I:

●       não se recita a bênção do lulav;

●       não se realizam os movimentos com as quatro espécies;

●       não se transportam as espécies até a sinagoga;

●       as espécies permanecem guardadas e protegidas;

●       a mitzvá será cumprida a partir do dia seguinte, conforme o calendário e o rito da comunidade.


Essa particularidade ensina que uma mitzvá não deve ser cumprida por meio da transgressão de outra. A alegria de Sukot deve caminhar junto com a santidade do Shabat.


11 Orações e Hallel


Durante Sukot recita-se o Hallel completo. Nos dias em que as quatro espécies são tomadas, elas acompanham determinados trechos do Hallel, especialmente as expressões de agradecimento e súplica.


A liturgia inclui a Amidá de Yom Tov, as inserções referentes ao Shabat quando correspondentes, Yaaleh Veyavô, leitura da Torá, Maftir, Haftará, Musaf, Kiddush da festa e Birkat Hamazon com as inserções apropriadas. Como Sukot I coincide com o Shabat, todas as fórmulas devem reconhecer simultaneamente o Shabat e Sukot. Deve-se seguir o machzor ou sidur utilizado pela comunidade.


12 A alegria da festa


A alegria de Sukot manifesta-se nas refeições festivas, nas roupas dignas, nos cânticos, no estudo, na convivência comunitária e no cuidado com os necessitados. A celebração não deve ficar limitada aos próprios familiares. Compartilhar alimento, companhia e acolhimento faz parte do espírito da festa.


13 Simchat Beit Hashoevá


Os últimos capítulos do tratado descrevem a extraordinária celebração da retirada da água, chamada Simchat Beit Hashoevá. A Mishná ensina que quem não presenciou essa celebração não teria visto verdadeira alegria em sua vida. No Templo, grandes luzes iluminavam Jerusalém enquanto sábios e membros da comunidade participavam com cânticos, instrumentos e manifestações de júbilo.


Atualmente, muitas comunidades recordam essa tradição por meio de encontros, músicas, estudos e celebrações durante Chol Hamoed. A alegria está ligada à gratidão pela água e à esperança de chuva e sustento no novo ciclo agrícola.


14 A libação da água


A Mishná descreve também a nisuch hamáyim, a libação da água realizada no altar durante Sukot. A água era retirada da fonte de Shiloach e conduzida ao Templo em cerimônia especial. Embora esse serviço não seja realizado atualmente, sua lembrança ensina que até mesmo a água, elemento comum e indispensável, deve ser recebida com gratidão.


15 Normas do Shabat e de Yom Tov


Como Sukot I coincide com o Shabat, observam-se todas as proibições próprias do Shabat. Portanto:


●       não se cozinha;

●       não se acende nem se apaga fogo;

●       não se liga ou desliga equipamento elétrico;

●       não se transportam objetos em local sem eruv válido;

●       não se monta, conserta ou modifica a sucá;

●       não se prendem novas decorações;

●       não se colhem ramos;

●       não se tomam nem se transportam as quatro espécies para cumprir a mitzvá.


As velas devem ser acesas antes do pôr do sol de sexta-feira, no horário indicado para o início do Shabat. A comida precisa estar preparada antecipadamente, respeitando-se as normas relativas à conservação e ao aquecimento dos alimentos.


Na diáspora, com o término do Shabat e o início de Sukot II, faz-se a passagem litúrgica prevista no machzor para a transição do Shabat a Yom Tov. Nenhuma preparação para o segundo dia deve começar antes do término completo do Shabat. Procedimentos envolvendo fogo preexistente e a ordem do Kiddush e da Havdalá devem seguir o rito e a orientação da comunidade.


16 Síntese espiritual do tratado


Os cinco capítulos da Mishná Suká conduzem-nos por três movimentos: construir uma morada temporária, reconhecendo a fragilidade da existência; tomar as espécies da terra, agradecendo pela diversidade e pelas bênçãos da criação; e celebrar diante de D’s, transformando gratidão em alegria comunitária.


A sucá ensina humildade. As quatro espécies ensinam unidade. A celebração da água ensina dependência. A alegria ensina que servir a D’s não deve ser apenas obrigação, mas também encontro, gratidão e esperança.


Neste Sukot I, quando a festa é recebida dentro da santidade do Shabat, somos convidados a permanecer na sucá sem tentar controlar ou modificar o mundo. Apenas habitamos, descansamos, agradecemos e reconhecemos que, mesmo sob uma cobertura frágil, estamos amparados pela presença de D’s.


Shabat Shalom Umevorach e Chag Sukot Sameach



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