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Sukot I no Shabat

24 de set.
5 min de leitura

A santidade do tempo e a fragilidade da morada


Leitura da Torá: Vayicrá 22:26–23:44

Maftir: Bamidbar 29:12–16

Haftará: Zechariá 14:1–21


Quando o primeiro dia de Sukot coincide com o Shabat, a leitura própria da festa substitui a parashá semanal. A Torá apresenta o ciclo das celebrações sagradas e culmina com os mandamentos de Sukot: habitar na sucá durante sete dias, tomar os frutos e ramos determinados pela Torá e alegrar-se diante de D’s.


A leitura começa tratando da santidade das oferendas e da proibição de profanar o Nome Divino. Antes de falar sobre as festas, a Torá recorda que a aproximação de D’s exige consciência, reverência e responsabilidade. A santidade não se limita aos momentos de oração; ela deve orientar a maneira como tratamos a vida, o próximo e tudo aquilo que colocamos a serviço de D’s.


Em seguida, a Torá apresenta os Moadim, os tempos determinados para o encontro entre D’s e Israel. O calendário judaico não é apenas uma sucessão de datas. Cada festa cria uma oportunidade espiritual própria. Pessach celebra a liberdade; Shavuot, o recebimento da Torá; Rosh Hashaná, a renovação; Yom Kipur, o perdão; e Sukot, a confiança, a gratidão e a alegria.


Quando Sukot I ocorre no Shabat, duas formas de santidade se encontram. O Shabat foi estabelecido desde a criação e retorna a cada sete dias. Sukot está ligado ao ciclo anual, à história do povo de Israel e à colheita. O Shabat nos ensina a interromper o trabalho; Sukot nos convida a abandonar, temporariamente, a segurança das construções permanentes. Ambos nos retiram da ilusão de que temos controle absoluto sobre o tempo e sobre a vida.


A sucá e a memória do deserto


A Torá determina que Israel habite em sucot para que as futuras gerações saibam que D’s fez o povo habitar em moradas temporárias quando o retirou da terra do Egito. A sucá transforma a memória do Êxodo em uma experiência concreta. Não apenas lemos sobre o deserto: entramos em uma morada simples e permitimos que sua fragilidade nos ensine.


No deserto, Israel não possuía cidades fortificadas, plantações estáveis ou fontes permanentes de alimento. A sobrevivência dependia diariamente da proteção divina. Ao entrar na sucá, deixamos por alguns momentos as estruturas que nos transmitem segurança e recordamos que toda estabilidade humana é limitada.


Isso não significa desprezar nossas casas, o trabalho ou os recursos materiais. Significa reconhecer que nenhuma dessas coisas deve ocupar o lugar de D’s. Uma casa pode proteger o corpo, mas não elimina todas as incertezas da existência. A sucá, embora temporária, pode tornar-se um espaço de verdadeira paz quando nela existe confiança, gratidão e presença divina.


A alegria como mandamento


A Torá não apresenta Sukot apenas como uma recordação histórica. Ela ordena que nos alegremos diante de D’s. Essa alegria surge precisamente depois de Rosh Hashaná e Yom Kipur. Após os dias de julgamento, introspecção, arrependimento e perdão, chega o momento de reencontrar a vida com leveza e esperança.


A verdadeira alegria não depende da ausência de problemas. A sucá continua frágil, o vento ainda pode atravessá-la e a chuva pode interromper uma refeição. Mesmo assim, a Torá nos manda alegrar-nos. Sukot ensina que a alegria judaica não nasce do controle de todas as circunstâncias, mas da confiança de que não estamos sozinhos diante delas.

No Shabat, essa mensagem se torna ainda mais profunda. Não construímos, não modificamos e não tentamos dominar a realidade. Simplesmente habitamos a sucá, descansamos e reconhecemos as bênçãos que já recebemos. A união entre Shabat e Sukot transforma o descanso em confiança e a alegria em gratidão.


As quatro espécies e o Shabat


A leitura da Torá menciona o fruto de uma árvore formosa, ramos de palmeira, galhos de árvores frondosas e salgueiros do ribeiro. A tradição identifica esses elementos como o etrog, o lulav, os hadassim e as aravot.


As quatro espécies apresentam formas, aromas e características diferentes, mas são reunidas para o cumprimento de uma única mitzvá. Elas representam a diversidade que precisa ser conduzida à unidade. Uma comunidade não se fortalece porque todos são iguais, mas porque pessoas diferentes aprendem a permanecer unidas diante de D’s.


Contudo, neste Sukot I, por coincidir com o Shabat, não se realiza a mitzvá das quatro espécies. A prática rabínica preserva a santidade do Shabat e impede que alguém transporte os objetos em local onde isso seja proibido. A ausência do movimento do lulav não diminui a festa. Ela ensina que o serviço a D’s também exige saber quando agir e quando interromper uma ação.


Neste dia, a sucá, as orações, as refeições e o repouso tornam-se as principais expressões da celebração. O Shabat não retira a alegria de Sukot; ele concede à festa uma alegria mais contemplativa.


O Maftir e a responsabilidade coletiva


O Maftir, retirado de Bamidbar, descreve as oferendas públicas apresentadas no primeiro dia de Sukot. Essas oferendas pertenciam ao serviço coletivo de Israel. A festa não era vivida somente como experiência individual ou familiar, mas como encontro de todo o povo diante de D’s.


As numerosas oferendas de Sukot também foram associadas pelos sábios às nações do mundo. Essa interpretação amplia o sentido da celebração: Israel não ora somente pelo próprio bem-estar, mas pela paz, pela chuva, pelo sustento e pela estabilidade de toda a humanidade.


Em um mundo marcado por guerras, divisões e insegurança, Sukot nos lembra que nenhuma comunidade pode construir sua felicidade sobre o sofrimento dos outros. A verdadeira bênção precisa produzir responsabilidade, solidariedade e paz.


A Haftará e o reconhecimento universal de D’s


A Haftará de Zechariá apresenta uma visão intensa do futuro. Depois de descrever conflitos e grandes transformações, o profeta anuncia que D’s será reconhecido como Rei sobre toda a terra. As nações subirão a Jerusalém para celebrar Sukot.


Essa escolha profética revela a dimensão universal da festa. A sucá não é apenas uma recordação do passado de Israel; ela aponta para um futuro em que diferentes povos reconhecerão a soberania divina e compreenderão sua dependência das chuvas e das bênçãos da criação.


Zechariá relaciona a celebração de Sukot à chuva. Nenhuma sociedade, por mais avançada que seja, consegue viver sem água. Reis, agricultores, sábios e trabalhadores dependem da mesma bênção. A chuva desfaz a ilusão da autossuficiência e coloca toda a humanidade diante de uma necessidade comum.


A visão do profeta não apaga as diferenças entre os povos. Ela mostra que a diversidade pode encontrar unidade no reconhecimento de D’s e na busca pela paz. Assim como as quatro espécies são reunidas sem perder suas características, as nações poderão aproximar-se sem deixar de possuir suas identidades.


A santidade que sai das paredes


A sucá possui paredes, mas não foi construída para nos isolar. Sua estrutura simples aproxima o interior do exterior. Podemos ouvir os sons da rua, sentir o vento e contemplar o céu. Ela nos ensina que uma vida verdadeiramente sagrada não pode permanecer fechada às necessidades do mundo.


Celebrar Sukot enquanto outras pessoas não possuem moradia, alimento ou companhia exige sensibilidade. A sucá deve tornar-se um lugar de hospitalidade. A alegria da festa cresce quando convidamos, partilhamos e percebemos aqueles que poderiam permanecer esquecidos.


O Shabat reforça essa dimensão comunitária. Todos são chamados ao descanso: familiares, trabalhadores, estrangeiros e até os animais. A santidade do tempo somente se completa quando inclui dignidade e consideração pelo próximo.


Neste Sukot I, a Torá nos convida a santificar o tempo, habitar com humildade e alegrar-nos com responsabilidade. A sucá recorda que a vida é transitória; o Shabat ensina que não somos escravos do trabalho; as quatro espécies proclamam a unidade; e a Haftará aponta para um futuro no qual toda a humanidade reconhecerá a presença de D’s.


Que possamos sair de nossas construções interiores, abandonar certezas rígidas e permitir que a luz do céu atravesse o sechach de nossa existência. Que nossas sucot sejam moradas de paz, acolhimento e gratidão, e que a alegria da festa nos fortaleça para construir uma comunidade mais unida e um mundo mais humano.


Shabat Shalom Umevorach e Chag Sukot Sameach


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