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Parashat Bereshit – A criação começa quando aprendemos a ler

8 de out.
3 min de leitura

Bereshit (בראשית) significa "No princípio".


Leitura da Torá: Bereshit (Gênesis) 1:1–6:8


Haftará: Yeshayahu (Isaías) 42:5–43:10


A cada ano, ao concluirmos Simchat Torá, poderíamos imaginar que voltamos ao mesmo ponto de partida. Entretanto, a tradição judaica ensina exatamente o contrário. Não retornamos ao início porque nada mudou; retornamos porque nós mudamos. Cada leitura de Bereshit revela aspectos que permaneciam ocultos na leitura anterior.


Talvez por isso os sábios afirmem que os primeiros versículos da Torá estão entre os mais conhecidos e, ao mesmo tempo, entre os menos compreendidos. Eles são extraordinariamente breves, mas encerram uma profundidade que nenhuma geração conseguiu esgotar. Como um poço inesgotável, quanto mais se retira dele, mais água continua oferecendo.


"Esse é um dos pontos centrais desenvolvidos pelo Rabino Yosef Bitton em Decifrando a Criação. Em vez de tratar os primeiros versículos do Gênesis como um relato simplificado da origem do universo, ele convida o leitor a examiná-los palavra por palavra, à luz da gramática hebraica, dos comentaristas clássicos e da tradição rabínica. O objetivo não é adaptar a Torá às teorias científicas nem transformar a ciência em comentário bíblico, mas compreender com maior precisão aquilo que o texto realmente afirma."


Essa perspectiva recorda um princípio muito antigo do estudo judaico: a Torá diz exatamente o que pretende dizer, mas nem sempre diz aquilo que imaginamos estar lendo.


Um exemplo é a primeira palavra da Torá: Bereshit.


Desde os tempos de Rashi, Ibn Ezra e Ramban, a forma dessa palavra provocou longas discussões. O texto não começa tentando provar a existência de D's. Também não descreve o processo da criação como um tratado científico. Ele começa afirmando uma verdade fundamental: o universo possui uma origem porque existe uma Vontade que o chamou à existência.


Essa ideia transformou profundamente o pensamento judaico.


Se o universo teve um começo, então ele possui um propósito.


Se existe um propósito, a história humana não é fruto do acaso.


E se a história possui direção, cada ser humano também possui responsabilidade.


É interessante observar que o primeiro ato criador registrado pela Torá não é a formação do ser humano, nem dos animais, nem das montanhas.


O primeiro grande ensinamento é a própria existência da ordem.


O caos não permanece absoluto.


A escuridão não domina para sempre.


A criação começa quando D's estabelece distinções: entre luz e trevas, entre águas e terra, entre o sagrado e o comum.


A tradição judaica sempre enxergou nessas separações um modelo para a vida espiritual.


Criar não significa apenas produzir algo novo.


Criar também significa colocar cada coisa em seu devido lugar.


Talvez seja esse um dos maiores desafios da vida moderna.


Vivemos cercados por excesso de informações, opiniões e estímulos. Muitas vezes perdemos a capacidade de distinguir o essencial do secundário.


Bereshit nos convida a recuperar essa ordem interior.


Assim como D's organizou o mundo antes de enchê-lo de vida, também somos chamados a organizar nossa existência para que ela possa produzir frutos.


A Haftará amplia essa mensagem. O profeta Isaías apresenta o Eterno como Aquele que criou os céus, estendeu a terra e concedeu vida a todos os seus habitantes. Em seguida, declara que Israel foi chamado para ser "luz para as nações".


Essa ligação entre a Criação e a missão de Israel não é acidental.


O mundo foi criado com ordem.


Israel foi chamado para preservar essa ordem moral.


Cada mitsvá, cada ato de justiça, cada gesto de bondade representa uma pequena participação humana na obra contínua da Criação.


Os sábios chegaram a afirmar que aquele que salva uma vida é considerado como se tivesse preservado um mundo inteiro.


Essa afirmação só faz sentido porque, desde Bereshit, cada ser humano possui um valor incomparável.


O relato da Criação não fala apenas sobre o passado.


Ele continua acontecendo.


Sempre que escolhemos a verdade em vez da mentira...


A paz em vez da violência...


A generosidade em vez do egoísmo...


Participamos daquilo que os sábios chamam de tikkun olam, o aperfeiçoamento do mundo.


Por isso, Bereshit não é apenas a história de como D's criou o universo.


É também o convite para que cada geração continue essa obra.


A criação começou com a Palavra do Eterno.


Mas ela continua através das escolhas daqueles que vivem segundo Sua Torá.


Que ao iniciarmos mais um ciclo de leitura da Torá, tenhamos a humildade de reconhecer que ainda há muito a aprender e a alegria de descobrir, mais uma vez, que o primeiro capítulo da Bíblia continua iluminando as grandes perguntas da existência humana.


Shabat Shalom Umevorach!


Referências

Torá – Bereshit 1:1–6:8 • Haftará – Isaías 42:5–43:10 • Talmud Bavli • Bereshit Rabbah • Rashi • Ramban • Ibn Ezra • Sforno • Yosef Bitton, Decifrando a Criação - Editora Sêfer

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