Parashat HaChodesh
- Marcos Wanderley

- há 3 dias
- 2 min de leitura
(Shemot/Êxodo 12:1–20)
A Parashat HaChodesh é lida no Shabat que antecede o mês de Nissan e inaugura o ciclo da redenção. O texto começa em Êxodo 12:1 — “E falou o Eterno a Moshê e a Aharon na terra do Egito, dizendo: Este mês será para vós o primeiro dos meses do ano” — e termina em Êxodo 12:20, que estabelece a proibição do chametz durante sete dias. Essa passagem marca o nascimento espiritual de Israel como povo, pois o primeiro mandamento coletivo dado não é apenas ritual, mas também temporal: a santificação do tempo.
Desenvolvimento
No início, em Êxodo 12:1, Deus ordena que Nissan seja o primeiro dos meses. Rashi observa que este é o primeiro mandamento dado a Israel como comunidade, simbolizando o início de sua identidade nacional e espiritual. Onkelos traduz “HaChodesh” como “yarcha” (mês), reforçando a ideia de um ciclo renovado. O Talmud (Rosh Hashaná 20a) discute como a santificação do mês depende do testemunho humano, mostrando que o povo participa ativamente da contagem do tempo sagrado.
Sob a ótica cabalística, o início da parashá revela que o tempo não é apenas cronológico, mas espiritual. O mês de Nissan representa a sefirá de Chessed (bondade), pois é o mês da libertação. O mandamento de santificar o mês é, portanto, uma convocação para alinhar o tempo humano com o fluxo divino. O conceito de Ein Sof se manifesta aqui: o infinito se revela em ciclos finitos, permitindo que o povo experimente a eternidade dentro da renovação mensal.
No final, em Êxodo 12:20, a Torá ordena: “Nenhum chametz comereis; em todas as vossas habitações comereis matzot.” Este versículo conclui a passagem com uma disciplina prática: a exclusão do fermento e a inclusão da simplicidade. Rashi explica que o chametz simboliza orgulho e corrupção, enquanto a matzá representa humildade e pureza. Onkelos traduz “matzot” como “patirei” (pães ázimos), destacando a simplicidade do alimento. O Talmud (Pesachim 5b) enfatiza que a proibição do chametz é absoluta, abrangendo todos os lugares onde o povo habita.
Na Cabala, o chametz é associado à expansão descontrolada do ego, enquanto a matzá é vista como o pão da fé (nahama de-mehemnuta). O final da parashá, portanto, não é apenas uma lei alimentar, mas um ensinamento espiritual: para entrar na dimensão da redenção, é necessário esvaziar-se do excesso e abrir espaço para a luz divina.
A Parashat HaChodesh começa com a santificação do tempo (Êxodo 12:1) e termina com a santificação do alimento (Êxodo 12:20). No início, o povo aprende que o tempo pertence a Deus e deve ser consagrado; no fim, aprende que até o alimento cotidiano deve ser purificado. Halachicamente, isso marca o nascimento de Israel como comunidade obediente à Torá. Cabalisticamente, revela que tanto o tempo quanto a matéria são canais para o Ein Sof.
Assim, HaChodesh ensina que a redenção não é apenas histórica, mas existencial: ela exige disciplina no calendário e no corpo, humildade no pão e consciência no tempo. O infinito se revela no ciclo dos meses e na simplicidade da matzá, mostrando que a verdadeira liberdade é viver em sintonia com o divino.
Shabat Shalom Umevorach

Comentários