Parashat Ki Tetsê
- Brasilena Gottschall
- há 4 dias
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(Deuteronômio 21:10 – 25:19 e Haftará Isaías 54:1–10)
A Parashá Ki Tetsê (“Quando saíres”) é a 49ª porção semanal da Torá e a sexta do Livro de Deuteronômio. Destaca-se por conter o maior número de mitzvot entre as 613 da Torá, somando 74 mandamentos — sendo 27 preceitos positivos e 47 proibições. Esta porção estabelece diretrizes normativas nos âmbitos doméstico, social, civil, penal, ético e humanitário, destinadas a reger a conduta do povo tanto em tempos de guerra quanto nas diversas interações do cotidiano. Conforme ensinam os nossos sábios, a batalha mais expressiva do povo judeu não é travada com espadas, mas sim no compromisso diário de preservar a Torá em nossas vidas.
Fundamentamos essa reflexão, destacando quatro pilares desta Parashá:
● 1º Pilar: “A Dignidade Humana” (Devarim 22:1-4; 24:14-15)
Ao ordenar “restituirás a teu irmão” e “não poderás ocultar-te”, bem como “não oprimirás o trabalhador pobre e necessitado” e “no mesmo dia lhe pagarás o seu salário” antes do pôr do sol, a Torá nos impele à empatia ativa. Exige-se que vejamos o próximo, que não negligenciemos o bem perdido e que jamais humilhemos o trabalhador. A dignidade humana não é uma faculdade opcional; é uma mitzvá.
● 2º Pilar: “Justiça e Verdade” (Devarim 25:13-16)
Ao determinar que “não terás no teu bolso pesos diversos [...] e nem diversas ‘efás’ em tua casa, ‘porque abominação é ao Eterno, teu Deus, todo aquele que fizer isto, todo aquele que fizer ‘falsidade’”. Pesos falsos, medidas adulteradas, mentiras no comércio, a Torá chama isso de “abominação” porque destrói a confiança da sociedade.
● 3º Pilar: “A Proteção aos Vulneráveis” (Devarim 24:17-22)“
Ao prescrever “não perverterás o juízo do peregrino e do órfão, nem tomarás em penhor a roupa da viúva” e orientar que, ao fazer a colheita, se deixe parte dos frutos “para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva”, a Torá institui o sistema de proteção social mais antigo da história por meio de Peá, Leket e Shikhechá (cantos do campo, espigas caídas e feixe esquecido). Essa assistência não é vista como mera caridade, mas como um direito fundamental do necessitado.
● 4º Pilar: “A Memória sobre Amalec” (Devarim 25:17-19)
A ordem “Recorda-te do que te fez Amalec no caminho, quando saíeis do Egito” exorta-nos a não esquecer aquele povo que covardemente emboscou os mais fracos e exaustos, sem demonstrar temor a D’us. Amalec não agiu por motivações territoriais ou materiais, mas pela prática da crueldade gratuita.
Refletindo sobre esses ensinamentos, a Parashá Ki Tetsê nos retira do contexto histórico do deserto e nos insere na realidade contemporânea. Se no passado Amalec atacava com lanças os mais vulneráveis na retaguarda, hoje ele se manifesta sob a forma de bullying, cyberbullying e campanhas de desinformação direcionadas àqueles que se encontram fragilizados ou desorientados. Amalec é a personificação da indiferença que esmaga os enfraquecidos.
Da mesma forma, se a Torá exigia integridade nas medições do mercado antigo, hoje o Eterno requer de nós a mesma equidade no ambiente corporativo, nas redes sociais e nos contratos firmados, demandando transparência nas relações e verdade na informação. Se outrora a mitzvá consistia em deixar a espiga no campo para os desamparados, hoje devemos estender o olhar àqueles que foram marginalizados pela sociedade — os solitários, vulneráveis e migrantes.
A Parashá Ki Tetsê ensina que a santidade não se restringe ao espaço sagrado do Shabat, mas deve permear todos os dias da semana e em todos os ambientes em que atuamos. Ela se expressa no ato de devolver o que não nos pertence, no pagamento pontual dos compromissos, na abstenção do Lashon Hará (maldizer) e no uso do Tzitzit como lembrete constante da nossa identidade (Devarim 22:12). Trata-se, em suma, da oportunidade de vivenciarmos o mandamento final desta Parashá: Zachor — Lembrar da justiça, recordar dos vulneráveis e reconhecer que D'us se faz presente nos detalhes. Assim, transformamos cada “Ki Tetsê” — cada saída nossa ao mundo — em um verdadeiro ato de Kiddush Hashem (“Santificação do Nome”).
Shabat Shalom!

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