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Parashat Ki Tissá


Imagem de falco por Pixabay


A porção semanal que se coloca diante de nós traz mais um relato sobre a integridade de Moshe Rabenu. Na história da humanidade, conforme aparece na Torá, houve momentos em que estivemos a ponto de sermos apagados do planeta Terra. Podemos lembrar do grande dilúvio, que viu a sobrevivência de uma família apenas, da qual todos descendemos. Além disso, há o relato da decepção divina em ter-nos criado, diminuindo gradativamente a longevidade humana. Podemos citar momentos críticos como a Torre de Babel e ainda Sodoma e Gomorra. A humanidade fazendo uso de sua rebeldia. Nesta semana, vemos como Moshé intercede pelo povo de Israel, fazendo-nos lembrar de seu antepassado Abraham Abinu.


É uma cena triste! Após todos os sinais, todas as experiências diretas com o Borê Olam (o Senhor do Universo), os filhos de Israel foram capazes de forjar um deus. Os homens arrancaram os adereços preciosos de suas esposas e doaram voluntariamente os seus. Isso para os verem ser transformados em um bezerro de ouro, a transgressão de um dos primeiros mandamentos, listado este entre as Dez Palavras - "não terás outros deuses diante de mim". E o fizeram com estilo. Ouro, festa, dança, cantoria, comida, bebida. O fim! Muitos poderiam dizer que aquela era a característica principal do povo. Que esperança poderia ter um povo que procedia assim? Que loucura tomou conta daquela nação em formação? Foi a gota d'água! O Borê Olam diz claramente:


E o Eterno disse a Moisés: "Tenho visto a este povo, e eis que é um povo insubordinável! (Shemot 32:09)


Entra Moshé!


Suas palavras ecoaram e alcançaram o coração divino, que desiste de destruir o povo completamente:


Volve-Te do furor da Tua ira e muda o pensamento de fazer mal a Teu povo. Recorda a Abrahão, a Isaac e a Israel, a quem juraste por Ti e falaste: "Multiplicarei vossa descendência como as estrelas dos céus, e toda a terra que Eu disse, darei à vossa descendência e herdarão para sempre." E o Eterno arrependeu-Se do mal que falou em fazer a Seu povo. (32:13-14)


Há alguns pontos a serem observados aqui. Por acaso Deus seria dissuadido pelo ser humano? Por acaso a atitude de Moshé pegaria Deus, o Borê Olam de surpresa? Fazendo-o ficar tocado e mudar? A resposta deverá ser um redondo não! Mas, o que importou aqui foi que Moshe teve aquela atitude. A atitude de interceder por outros. De defendê-los a custo de sua própria vida, de seu próprio lugar na história. E por que ele, Moshé, o fez? Porque conhecia o seu Deus. Ele sabia que o Borê Olam é misericordioso, amoroso e bom. Ele conhecia várias situações em que o Altíssimo havia demonstrado esse aspecto de Sua essência. Vejamos:


  • A criação - o compartilhar da vida

  • A humanidade feita à Sua imagem e semelhança

  • Um mundo belíssimo com mantimento para todos

  • A escolha de um povo para que seja luz para as nações

  • A Torá

  • Os livramentos


Apenas alguns aspectos que podem nos remeter a um Criador ativo e cuidadoso.


Esta Parashá vai além. Todos nós que estamos familiarizados com o serviço de Vidui (confissão) que recitamos principalmente durante os Yamim Noraim, mas que também faz parte de nossas rezas diárias, excetuando os dias em que não recitamos súplicas (tachanunim), lembraremos de algumas palavras que dizemos e que são a garantia da fidelidade e misericórdia divinas. Nossos sábios viram claramente aqui os treze atributos divinos baseados nas seguintes palavras:



“HaShem HaShem El Rachum veChanun Erech Apáim veRav Chéssed veEmêt. Notzêr Chesed Laalafim Nossê Avon Vafêsha veChataá veNakê” (34:6-7)


"Eterno, Eterno, Deus piedoso e misericordioso, tardio em irar-Se e grande em benignidade e verdade; que guarda benignidade para duas mil gerações, que perdoa iniquidade, rebelião e pecado"


São essas palavras que nos remetem à possibilidade de sermos perdoados de nossos erros e podermos recomeçar. A oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores, judeus melhores.


Num momento difícil para o povo judeu, em que o antissemitismo se faz cada vez mais presente, mesmo tendo andado escondido, oculto. Hoje, as pessoas se sentem mais à vontade para expressar seu sentimento antijudaico. Nossa Parashá nos conta sobre um momento em que o povo foi infiel diante de Deus. No entanto, Deus não o destruiu. Um judeu, Moshé, soube interceder por seu povo. Soube defendê-lo. Era um povo em formação, aprendendo as leis, aprendendo a independência. Posteriormente, aquele mesmo povo que havia sido infiel, foi forte para lutar por sua terra e possuí-la com Yehoshua bin Nun (Josué) à sua frente. Foi esse povo que manteve a Torá, o ensinamento que serviu de base para os valores éticos do ocidente. Foi esse povo que deu ao mundo um número infinitamente desproporcional de cientistas que facilitam a vida humana da medicina, passando pela agricultura e educação, às tecnologias mais avançadas. Foi esse mesmo povo que mesmo sendo perseguido e ameaçado de extermínio não sucumbiu. O povo que deu ao mundo, mesmo que muitos se coloquem contra ele, um estado democrático no coração do oriente médio, um exemplo de desenvolvimento, de justiça e de acolhimento.


Então, quando Moshé suplicou o perdão para o povo, o Borê Olam já sabia que aqueles seus filhos iriam ser a esperança para que a humanidade chegasse aos níveis que seu potencial exigia. O que Ele faz? Ele revela-se a Moshe de uma forma inédita. Ele se permite ver ainda que parcialmente, mas a revelação maior está na seguinte frase:


E disse: "Eu farei passar todo o Meu bem diante de ti, e chamarei em Nome do Eterno diante de ti – (para ensinar-te como implorar Minha piedade) – e farei misericórdia quando Eu quiser fazer misericórdia e Me compadecerei quando Eu quiser Me compadecer." (33:19)


Aqui entendemos o porquê de Moshe perceber:


"Eterno, Eterno, Deus piedoso e misericordioso, tardio em irar-Se e grande em benignidade e verdade; que guarda benignidade para duas mil gerações, que perdoa iniquidade, rebelião e pecado" (34:6-7)


O nome divino revelado a Moshe traz consigo o atributo da misericórdia (Rashi/Ibn Ezra/Or HaChaim). Esse nome é o selo do relacionamento que podemos ter com o Divino como nosso alívio, nosso refrigério, nossa paz, nosso maior amor.


O mesmo povo que ouviu a repreensão divina no episódio do bezerro de ouro pode ouvir mais tarde em sua história, por intermédio de Zacarias, o profeta:


Porque assim disse o Eterno dos Exércitos – que me enviou numa missão de glória às nações que vos despojaram, pois aquele que vos atingir estará atingindo a pupila de Seus olhos (Zahariá 2:12)


Para que não fique dúvida sobre o amor do Borê Olam por Israel.


Entendemos então uma das razões pelas quais lemos o profeta Ioná (Jonas) na Minchá de Iom Kipur. Ele, conhecendo Seu Deus, não queria ir à Nínive, a grande cidade, para alertar o povo dali sobre seus pecados e as consequências dos mesmos. Após o grande peixe e sua ida à cidade e seu alerta, percebe que o Altíssimo havia perdoado os ninivitas, afinal, eles se arrependeram profundamente de seus erros. Jonas se revolta:


Mas isso desagradou extremamente a Jonas, e ele ficou irado. 2 E orou ao Eterno e disse: 'Ah! Eterno, não foi esta a minha palavra, estando eu ainda no meu país? Por isso é que me apressei em fugir para Tarshish, pois eu sabia que Tu és um Deus clemente e misericordioso, tardio em irar-Se e de grande benevolência, e que Te arrependes do mal. 3 Agora, Eterno, tira-me a vida, pois melhor me é morrer do que viver!' (Ioná 4:1-4)


Jonas não suporta a ideia de ver um povo que deveria ser castigado receber o perdão, simplesmente por terem abandonado suas atitudes ruins.


E quanto a nós? Como agimos? É mais fácil condenar do que defender alguém? No nosso dia a dia, quantas vezes atuamos como acusadores, ou melhor, críticos? Somos capazes de ouvir relatos negativos sobre pessoas que conhecemos e nos calarmos, sem emitir uma palavra de defesa ou de ponderação? Não é à toa que a Torá reprova o comportamento de quem ouve a maledicência, tanto quanto o de quem a comete.


Que sejamos como Moshé e nos alegremos quando alguém se ergue. Se alguém falar mal de outro, defendamo-lo. A Torá nos foi dada para a vida. A direção da vida é para cima, não para baixo como a morte. Falar mal de alguém é o mesmo que matá-lo. Falar bem de alguém é revivê-lo, dar-lhe honra e dignidade. Ora, o Senhor do Universo, que é perfeito, olha para nós e nos perdoa diante de nossa teshuvá. Como devemos agir com nossos correligionários? E com os nossos amigos que não são da mesma persuasão que nós?


A glória da Torá está em sua observância e é a Torá que nos ensina a amar o próximo como a nós mesmos. Sim, a Torá, não outro… a Torá!


Foi o que Moshé fez com todo o povo. Um povo que mostrou merecer aquela chance. Afinal de contas, estamos aqui. Que olhemos uns para os outros com graça, favor e amor.



Shabat Shalom!



Referências


  • Os textos do Tanach foram retirados da Bíblia Hebraica - Editora Sêfer

  • sefaria.org

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