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Dia do Trabalhador

Dando continuidade às homenagens relacionadas às datas comemorativas, seguirei falando sobre artistas e músicas que abordam, retratam e representam trabalhadores de todo o mundo. Importante também ressaltar que as homenagens anteriores relacionadas ao dia internacional da mulher tem uma relação muito próxima com a questão trabalhista internacional.


Zé Ramalho na edição de 2008 da Virada Cultural em São Paulo.



Darei início com um dos meus artistas nacionais favoritos, Zé Ramalho. Zé Ramalho pode ser chamado de Bob Dylan brasileiro facilmente. Suas músicas sempre misturaram elementos regionais nordestinos como Baião, Forró e Xaxado junto com o Folk Rock norte-americano e psicodelia. Mantendo essa linha, suas letras contam histórias que misturam realidade com ficção, indo de lendas e liturgias até o cotidiano e eventos marcantes.


A música “Cidadão”, gravada pela primeira vez por Zé Geraldo em 1979, foi obra do poeta baiano Lúcio Barbosa como homenagem ao seu tio que era pedreiro. Ela narra em primeira pessoa a frustração de um trabalhador humilde de não poder usufruir daquilo que ele mesmo ajudou a construir ao exemplificar locais e situações de discriminação e estranhamento.


Zé Ramalho – Cidadão



Daniel Kahn & The Painted Birds é um grupo que já fazia tempo que gostaria de colocar aqui por diversos motivos. Daniel Kahn é um judeu nascido em Detroit que se mudou para New Orleans após os estudos e se dedicou ao Jazz, Folk, Klezmer e, assim podemos dizer, músicas em geral, mas sobretudo música judaica. Além de músico e escritor, Daniel Kahn também é ator. A banda surge em Berlim em 2005 unindo Klezmer, Folk, Jazz e Gypsy Punk com elementos teatrais. Suas letras vão de contos, histórias e cotidiano até ácidas críticas políticas e sociais. “March of the Jobless Corps” é uma versão moderna de um Klezmer de 1906 do escritor e ativista político judeu polonês Mordechai Gebirtig “Arbetlose Marsch” em Iídiche. Trata-se de uma música que fala da união de trabalhadores reivindicando melhores condições de trabalho.


Daniel Kahn & The Painted Bird – March of the Jobless Corp


Mordechai Gebirtig – Arbetlose Marsch


Lead Belly era um cantor, músico e compositor de Folk e Blues do início do século XX. Lead Belly não obteve o mesmo sucesso em vida quanto algumas de suas músicas. Muitas delas, assim como “Cotton Fields”, foram regravadas por diversos artistas de vários estilos musicais ao longo dos anos. Em especial essa música, assim como “Midnight Special”, ficaram muito mais conhecidas por suas versões feitas pelo Creedence. E, assim como podemos ver nessas duas músicas, Lead Belly trazia elementos das músicas de laboro cantada pelos negros escravizados junto com cânticos gospel e coisas do dia-a-dia como trabalho, vida, política, guerra, casamento e outras questões que permeiam nossa sociedade.


Lead Belly – Catton Fields



Já falei de Woody Guthrie aqui antes ao falar sobre música Folk moderna e como ele foi uma influência para todos os grandes nomes como Bob Dylan e Simon & Garfunkel. Woody Guthrie nasceu em Oklahoma em uma família pobre e ativa politicamente da zona rural de Okemah. Após diversas tragédias como incêndios, doenças, mortes em família, Dust Bowl (tempestade de areia que ocorreu nos EUA nos anos 1930s que durou por quase dez anos) e pobreza, assim como os milhares de Okies (nativos de Oklahoma que migraram principalmente pra Califórnia), se mudou para Califórnia a procura de uma vida melhor. Suas letras sempre falam das mazelas populares da vida do trabalhador urbano e rural. Além das questões trabalhistas, Woody era um grande ativista Antifascista sendo famoso por ter escrito em seu violão “Essa máquina mata fascistas”. Uma relevante curiosidade é que enquanto morava no Brooklyn nos anos 1940, Woody se aproximou de Marjorie Mazia Greenblatt, uma poetisa judia que escrevia em ídiche. Um ajudou no trabalho do outro produzindo canções judaicas e outras que envolvia cultura judaica, poesia, antifascismo, trabalhismo e a luta contra opressão que incluía judeus, Okies e outros povos e grupos oprimidos.


Woody Guthrie – Talking Hard Work



Johnny Cash é sem dúvidas um dos meus cantores favoritos e acho fantástico como ele consegue falar absolutamente de tudo. Pode ser triste, sério ou engraçado. Pode ser cantando ou declamando. Pode ser verídica, ficcional ou surreal. Sempre com sua voz grave de trovão, trajando preto e com seu violão as vezes sendo apontado como um rifle. Rebelde e debochado, Johnny Cash consegue trazer uma emersão absurda mesmo com músicas simples. Não é atoa que é um dos artistas mais escutados por mim e por boa parte de meus amigos.

Cash também veio de uma família pobre e trabalhadora. Nascido em Kingsland no interior do Arkansas, teve que se mudar algumas vezes em busca de oportunidades melhores. Ele narra em uma das suas biografias que seu pai, mesmo tendo uma modesta fazenda de algodão, as vezes viajava para trabalhar em outros lugares e não tinha dinheiro para pagar o bilhete, o que fazia ser agredido e retirado do trem. Sempre foi aficionado por música e canções populares, mas teve que começar a trabalhar no campo de algodão aos cinco anos.


Johnny Cash – Working Man Blues



Bezerra da Silva é o meu sambista favorito e fico levemente irritado com a imagem estigmatizada e limitada que a maioria das pessoas tem dele. Até aqueles que dizem gostar, muitas vezes só conhecem “Malandragem Dá Um Tempo” ou “A Semente”, mas a verdade é que Bezerra tem uma extensa obra que vai do Samba de Coco ao Partido-Alto. Nasceu de uma família pobre em Recife cujo pai abandonou sua mãe quando essa estava grávida. Aos 15 anos ele foi expulso de casa e viajou num navio de carga para o Rio de Janeiro a procura do pai e de uma oportunidade de fugir da pobreza. Trabalhou como pintor na época que foi morar no Morro do Cantagalo e acabou tento contato com músicos e blocos carnavalescos. Devido seu lado boêmio e contraventor, foi preso algumas vezes o que fez perder o emprego e se tornar morar de rua. Ao tentar o suicídio, foi salvo e acolhido por um terreiro de umbanda. Voltou à música e chegou a fazer uma parceria com Jackson do Pandeiro em 1959. Logo depois se tornou músico contratado da Copacabana Discos. Em 1967 compôs seu primeiro Samba. Em 1969 Gravou seu primeiro compacto. Em 1975 lança seu primeiro disco “O Rei do Coco Volume 1”. Daí por diante sua carreira só deslanchou fazendo diversas parcerias ao longo dos anos e contanto com verdade e deboche sobre a vida simples de um morador do morro. Sempre com críticas, conselhos e piadas, Bezerra da Silva evidenciou problemas que os sociólogos sempre tiveram dificuldades de explicar.


Bezerra da Silva – Não É Conselho



Agora vou colocar aqueles extras mais radicais que ocasionalmente são importantes de mencionar. Primeiro vou colocar algo mais “leve”, Garotos Podres. Banda de Street Punk/Oi! formada em 1982 em Mauá no ABC Paulista. Pode-se dizer que é uma das bandas Punk mais famosas do Brasil com músicas que se eternizaram na cena. Diferente da maioria dos skinheads evidenciados pela mídia, o vocalista Mao, que inclusive é Doutor em História Política, não é “Careca” (fascista), mas muito pelo contrário. O ABC, tem um polo industrial que causa notoriedade e foi uma “fábrica” propícia para o surgimento de várias bandas ligadas ao movimento Oi! e a questão trabalhista. Mesmo Mao Sendo professor da USP e a banda ser bem politizada e engajada, entre diversas boas músicas, houve também algumas músicas bem “bestas”. Porém irei colocar uma música que representa bem a banda e bem o tema.


Garotos Podres – Subúrbio Operário


Acho que graças a MTV o Ratos de Porão é a banda Punk mais famosa do Brasil, principalmente por causa do seu vocalista João Gordo que trabalhou na TV por muitos anos. Formada no subúrbio da cidade de São Paulo, o Ratos representava o outro lado do Punk, o Punk de subúrbio. Nos anos 1980 existia uma rivalidade que vai além da política entre os Punks de São Paulo capital (Subúrbio) e os Punks do ABC (Operários). Por mais que ambos os grupos fossem politizados e oriundos da classe trabalhadora, existiam particularidades e bairrismos que geravam conflitos. Para além disso, Ratos de Porão só foi de fato uma banda Punk no seu começo, pois logo depois foram adquirindo outras influências e se tornando percussores tanto do Hardcore quanto do Crossover Thrash (o que deram notoriedade assim como alcunha de “traidores do movimento”. Essa música “Vida Ruim” faz parte de um de seus primeiros registros no Split SUB de 1983, um marco na história do Punk nacional.


Ratos de Porão – Vida Ruim


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