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Música e Cinema 2


Cena do filme Ó Paí, Ó, de 2007, dirigido por Monique Gardenberg (Reprodução)



Elvis Presley foi o primeiro artista realmente bem aproveitado pela mídia. O investimento que deram a sua imagem de diferentes formas proporcionou a criação de um múltiplo Elvis. Um ícone único da cultura pop que obteve o título de Rei do Rock mesmo afirmando que nunca criou nada. Nem as músicas que ele mesmo assinou, ele fez sozinho. Por mais que fosse um bom músico e excelente cantor, não teria obtido tanto destaque caso não houvesse estratégias de marketing promovendo sua imagem de diversas formas. Ele conseguiu um destaque que nenhum outro artista haveria conseguido, chegando ao ponto de atribuírem a criação do Rock ao próprio Elvis que acabou gerando uma visão embranquecida do gênero.


Independe de ter criado algo ou não, é inegável seu talento musical. Já o seu talento cénico não é tão formidável assim. Mas também não que se exigisse muito dele, coitado. Elvis tem uma discografia bem extensa lançando mais de um disco por ano de 1956 até 1977, tirando em 1959. Sua filmografia não chega a ser grande como sua discografia, mas é considerável com mais de vinte filmes. Confesso que não assisti todos, mas tem alguns que indico para todo fã de Elvis como “Charro!” (um faroeste onde ele não canta), seu primeiro “Ama-me Com Ternura” (Love Tender), “Jailhouse Rock” que acho ser o mais conhecido, “Balada Sangrenta” (King Creole) um dos meus favoritos, “Saudades de um Pracinha” (G.I. Blues), “Estrelas de Fogo” (Flaming Stars) o meu favorito, “Seresteiro de Acapulco” (Fun In Acapulco) um dos mais famosos aqui no Brasil e “Viva Las Vegas”. Esse último eu escolhi por ser o mais cantado dos que eu mais gosto. Nele, Elvis é um piloto de corrida que sonha em ganhar o Grand Prix de Las Vegas e acaba se apaixonando por uma linda e arrogante professora de dança. O enredo não é dos melhores, mas acho um bom filme para representar Elvis.


Elvis Presley - C'mon Everybody



Realmente faz todo sentido Roberto Carlos ser o nosso Rei. Nem de longe acho que ele seja nosso melhor representante ou que seja o melhor músico e cantor brasileiro. Mas vejo muito de Elvis na construção de Roberto Carlos para muito além de suas imitações de início de carreira. Acontece que a produção de Roberto Carlos, assim como ele fez, imitou o que a produção de Elvis fazia com ele. Além de estar sempre na TV e na rádio, Roberto Carlos começou a protagonizar filmes lançados quase que simultaneamente com seus discos que correspondiam as suas trilhas sonoras. Roberto Carlos era o rei do programa musical de TV “Jovem Guarda” que levava o nome do movimento musical de rock ‘n’ roll que surgia no brasil nos anos 1960 que misturavam influências estadunidense, inglesa e italiana (principalmente na utilização de solos de órgãos no lugar de guitarras). Roberto Carlos conseguiu conquistar um vasto público nacional por ser cantor, ator e apresentador. Foi nesse programa que ficou conhecido como “Rei” e sua imaginem se popularizou por todo Brasil. Além das rádios e TVs, ele conquistaria o público nos cinemas com filmes que misturavam comédia com ação como no caso de “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” de 1966 em que o cantor interpreta a si mesmo num filme enquanto é perseguido por um grupo de bandidos internacionais com um Q de 007.


Roberto Carlos – Quando



The Beatles é uma banda que dispensa apresentações. Muito dificilmente achará alguém que nunca ouviu falar do quarteto de Liverpool. Oficialmente eles são de 1960, mas formaram banda em 1956 com The Quarrymen seguindo uma onda muito mais Rock ‘n’ Roll/Rockabilly e muito mais americanizados. Interessante que, independente do grande talento dos jovens, as estratégias de marketing foram fundamentais para a repercussão e notoriedade da banda no mundo. Ao analisar diversos artistas de vários países e muitos estilos e gêneros musicais, pude constatar que não importa só talento para se obter o sucesso, precisa também de dinheiro para vender sua imagem e de pessoas com um capital simbólico-sociocultural para consolidar sua arte no mundo. Claro que se fosse uma banda ruim, não seria a banda mais conhecida de todos os tempos, mas poderiam não ter nem metade do sucesso caso não fosse sua produção que investiu até em cosméticos, roupas e acessórios transforando a banda numa marca. E podemos atribuir isso para duas pessoas, seu agente e empresário judeu Brian Epstein e o produtor musical George Martin que os tiraram do genérico americanizado e trouxeram para uma originalidade britânica. O jeito de se vestir, de se portar, cantar, tocar e agir foram moldados por esses dois com ideal de criar uma imagem autêntica e vendável. Com o tempo, eles se tornaram genéricos neles próprios. Assim como Elvis e Roberto Carlos, começaram a atacar o cinema e a TVs aparecendo em programas e filmes. Dizem que o empurrãozinho para entrarem na verdadeira originalidade veio com Bob Dylan.


Acontece que os Beatles fizeram filmes nas suas duas principais fases, porém o filme que mais vejo destaque é o “Yellow Submarine” de 1968. Trata-se de uma animação psicodélica baseada no disco homônimo e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”. Fala sobre Pepperland, terra mágica, feliz e musical à 80 mil léguas submarinas onde todos se divertem ouvindo a banda do Sargento Pimenta. Porém um dia os Malvados Azuis, que detestam música e coisas felizes ou fofas, invadem Pepperland roubando sua cor, música e alegria, mas os Beatles são convocados para salvar a música da ditadura dos Malvados Azuis


The Beatles – Yellow Submarine



Existe um movimento de arte marginal que infelizmente não obteve toda fama que merecia. Blaxploitation foi um fenômeno do cinema negro estadunidense, um movimento cinematográfico completamente alternativo e de resistência. Motivados pela exclusão social e midiática, sobretudo na TV e cinema, surgiu a ideia de filmes atuados, protagonizados e realizados por atores e diretores negros. Filmes feitos de negros para negros. Basicamente, eram todo tipo de filme, porém com uma temática negra-americana. Esse movimento é típico dos anos 70’s e por pouco interesse das produtoras e baixos orçamentos, gerou muita coisa tosca (como “Blacula” de 1973 e “Black Samurai” de 1977), mas foi um marco no cinema de qualquer jeito. Pam Grier (Coffy 1973, Foxy Brown 1974, Jackie Brown 1997), Richard Roundtree (Shaft 1971) e Dolemite podem ser os principais nomes dos atores de Blaxploitation. Muitos de seus diretores eram roteiristas, romancistas e ativistas do movimento negro como Gordon Parks e Melvin Van Peeble. Importante destacar que um dos meus filmes favoritos desse marco do cinema, “Black Caesar” de 1973, é dirigido pelo diretor e roteirista judeu Larry Cohen, que fez o roteiro do faroeste “El Condor” com Lee Van Cliff, e escreveu e dirigiu a continuação sobre o padrinho do Harlem “Hell Up In Harlem” de 1976. Porém eu escolhi a música “Pushman” de Curtis Mayfield para o filme “Superfly” de 1972. Mayfield, um dos maiores nomes do Soul e R&B de todos os tempos, fez toda a brilhante trilha sonora desse filme.


Curtis Mayfield – Pushman



Mantendo essa linha de temática e música, um filme nacional que não pode deixar de ser mencionado é “Cidade de Deus”. De 2002, dirigido por Fernando Meirelles e baseado num livro homônimo de Paulo Lins de 1997, o filme tem uma narrativa estilo Scorsese de ascensão e queda no mundo do crime de forma detalhada e íntima, porém feita por alguém que não está diretamente envolvido, mas que convive com tudo aquilo. Numa mistura de ação e drama com cenas que vão do impacto até mesmo chocante à graça quase de uma comédia. O filme começa ainda no que parece ser o fim dos anos 1960 e vai até o que parece ser começo de 1980 numa mistura de ficção e realidade. É um filme que acho que todo brasileiro ou pessoa que goste de cinema tem que assistir. E claro que escolhi “O Caminho do Bem” de Tim Maia do álbum “Tim Maia Racional, Vol. 2” de 1975. Numa mistura de Rock Psicodélico com Soul e R&B com elementos brasileiros, Tim Maia, o maior nome da música Soul nacional, estava completamente envolvido pela doutrina religiosa do movimento Cultura Racional.


Tim Maia – O Caminho do Bem



Chico Buarque de Holanda, filho do grande sociólogo e historiador Sergio Buarque de Holanda, não é o meu cantor favorito, mas o acho um compositor brilhante não só na música, mas também como um dramaturgo. Em 1978 ele escreve “Ópera do Malandro” para o teatro com produção de Ary Fontoura. Em 1986 ganha sua adaptação para o cinema com Edson Celulari, Cláudia Ohana (no lugar de Marieta Severo), Elba Ramalho e Ney Latorraca.


Edson Celulari e Aquiles Rique Reis – Desafio do Malandro



Um filme que já falei antes ao homenagear o carnaval foi “Ó Paí, Ó”, que julgo ser o filme que melhor representa Salvador nos cinemas. Para descordar, só aqueles que não viveram ou observaram o cotidiano desse centro urbano, sobretudo na dinâmica de carnaval. Trata-se de uma comédia (com toques de drama) baseada numa peça do bando de teatro Olodum homônima. Focado num grupo de moradores que vivem numa relação de amor e ódio num animado cortiço no Pelourinho durante o último dia de carnaval, cada personagem é muito bem construído e amarrado com a história que quando acaba deixa um gosto de quero mais. Tanto que acabou se tornando uma minissérie anos depois.


Olodum – I Miss Her


Quentin Tarantino é um diretor que obteve destaque por realizar com brilhante maestria uma grande recorte e cola de referências de filmes A e B com trilhas sonoras fartas e bem encaixadas. É impressionante como ele consegue misturar tanta coisa diferente deixando bem claro suas referências de maneira tão original e autêntica. Podemos ver os filmes de gangster de Scorsese, os de kung-fu chineses, os faroestes de Sergio Leone, os filmes de ação B norte-americanos e de Samurais japoneses tudo no mesmo filme. Lembro como minha mente explodiu ao ver Franco Nero em “Django” (Franco Nero foi o Django original de 1966) ou ouvir Ennio Morricone em “Kill Bill” e “Bastardos Inglórios”. Na verdade, “Bastardos Inglórios” merece ser mencionado pelo fato de se tratar de filme que fala sobre um grupo de oito soldados judeus que fugiram do nazismo e montam um esquadrão especial cujo o objetivo é caçar, matar e torturar nazistas no meio da Segunda Guerra Mundial. Porém a cena e música que creio que ficaram mais emblemáticas na filmografia desse grande diretor é quando o personagem de Michael Madsen brinca e tortura um polícia em “Cães de Aluguel”, um de seus primeiros filmes, ao som de “Stuck in the Middle With You” dos Stealers Wheel, uma banda escocesa de Folk Rock formada em 1972 por Joe Egan e Gerry Rafferty que me orgulhava de conhecer essa desconhecida banda por conta do meu pai bem antes do filme. Meu pai conheceu a banda pedindo por indicações de novidade para uma distribuidora de discos do Rio de Janeiro entre o fim da década de 1970 e início de 1980.


Stealers Wheel – Stuck In The Middle With You



Eu assisti “C.R.A.Z.Y. Loucos de Amor” na adolescência e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a vasta trilha sonora de Rock setentista como Rolling Stones, Pink Floyd e David Bowie. É um filme da parte francesa do Canadá e conta a história de um jovem confuso com sua sexualidade e com uma relação conflituosa com seus familiares, sobretudo com seu pai que o ama, mas não aceita. O filme começa com o personagem principal ainda criança, passando pela adolescência e focando mais na sua vida de jovem adulto. Lembro que na época ouvi falar que o mais caro do filme foi conseguir colocar todas as músicas que eles queriam. Interessante também que o filme não trabalha muito isso, mas o personagem principal teria um poder de cura e acaba indo para Israel numa viagem espiritual. Num paralelo com Jesus, sua família é católica, ele caminha no deserto e é tentado e acaba indo parar numa boate gay.


David Bowie – Space Oddity


Quem me conhece sabe que não sou nem um pouco fã da subcultura hippie por questões sociopolíticas e estéticas. Hippies e Headbangers são inimigos naturais (falando de forma brincante), mas independente disso eu julgo um movimento pós-moderno que não traz uma mudança real nessa suposta “ruptura do sistema”. Porém eu vim aqui pra falar de um dos meus musicais favoritos que é o “Hair” de 1979. Mesmo não gostando da temática, eu acho esse filme muito bom. Na verdade, é baseado num musical da Broadway que fala sobre um jovem caubói do interior que está de passagem por Nova Iorque para se apresentar para ir para guerra do Vietnã, mas acaba conhecendo um grupo de hippies e se mete em várias confusões para conquistar uma rica jovem por quem se apaixona. Essa música foi responsável por muita identificação minha, pois era muito chato e irritante a quantidade de críticas, ameaças e piadas relacionadas ao meu cabelo grande, o que não era bem aceito pela maioria das pessoas que via como algo não masculino.


Hair – Hair Song



Uma outra temática no cinema que sou extremamente apaixonado é a de guerra do Vietnã. Já vi tantos filmes e documentários que chega tenho síndrome de falso estresse pós-traumático. Mesmo que ideologicamente eu seja contra o conflito e a participação dos EUA, é algo que consome bastante do meu tempo. Interessante como uma guerra que não era do EUA, mas sim uma guerra civil, tem sua intervenção com muito mais soldados, recursos e armamentos e mesmo assim conseguem perder a guerra (retirada estratégica segundo eles). Porém, se parar para analisar os muitos filmes sobre a guerra ou que o personagem principal é um veterano da guerra, passa a impressão que eles atravessaram o mundo para espalhar a democracia e ganharam, mas não foi bem assim. Durante a década de 1960 e 1970, muitas músicas com essa temática surgiram, principalmente músicas que criticam isso. Junto com a difusão via rádio, os soldados tinham melhor acesso as músicas diferentes de guerras anteriores. Então obtivemos o que podemos chamar de “músicas da guerra do Vietnã” que estão presentes em muitos filmes sobre o conflito. Gostaria de indicar alguns desses como “Nascido Para Matar”, “Nascido Em 4 de Julho”, “Bom Dia, Vietnã”, “O Franco Atirador”, “Platoon” e o que indicarei como o melhor de todos “Apocalypse Now”.


The Doors – The End


Monty Python revolucionou o gênero da comédia criando o modelo de esquete, que consiste em pequenas cenas sem necessitar estar interligada com outras ou fazendo parte de uma temática central. Esse grupo de comédia britânica surgiu na TV em 1969 com a série “Monty Python’s Flying Circus” que durou quatro temporadas. Mas logo na década seguinte o grupo ainda iria criar alguns dos filmes de comédia mais engraçados na minha opinião. Roger Waters do Pink Floyd disse que faltava as gravações do “Dark Side Of The Moon” para assistir o programa de TV quando estava estressado, além de ter investido dinheiro em “O Sentido Da Vida”, o último filme do grupo sobre existencialismo. George Harrison hipotecou sua casa para financiar “A Vida de Brian”, uma sátira sobre a história de Jesus, além de fazer uma pequena ponta no filme, como também atuou ao lado de Mick Jagger e John Belushi na sátira sobre os Beatles no filme “The Rutles”. Outro filme muito bom é “Em Busca Do Cálice Sagrado”, uma sátira sobre o Rei Arthur. A música que escolhi é do final de “A Vida De Brian” quando a revolução judaica do jovem trapalhão Brian, que é confundido com o messias, fracassa e esse se vê crucificado.


Eric Idle e Monty Python – Always Look On The Bright Side Of Life


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