Parashat Behaalotechá
- Marcos Wanderley

- 4 de jun.
- 4 min de leitura
Torá: Bamidbar/Números 8:1–12:16 | Haftará: Zechariá/Zacarias 2:14–4:7
A palavra Behaalotechá vem do hebraico e pode ser traduzida como “quando fizeres subir” ou “quando elevares”, referindo-se ao momento em que Aharon deveria acender as lâmpadas da Menorá. A Torá não usa apenas uma palavra comum para “acender”, mas uma expressão ligada à ideia de elevação. Isso ensina que a luz espiritual não deve apenas aparecer; ela precisa subir, crescer e alcançar sua plenitude.
A parashá começa com a ordem dada a Aharon para acender as lâmpadas da Menorá. Essa imagem inicial é muito significativa, pois a Menorá representa a luz da Torá, da sabedoria e da presença divina no meio do povo. Aharon não é chamado apenas para produzir luz, mas para cuidar dela, prepará-la e elevá-la. A missão espiritual de Israel também é assim: não basta possuir uma chama interior; é preciso alimentá-la todos os dias para que ela ilumine a vida, a comunidade e o mundo.
Rashi, comentando o início da parashá, explica que a seção da Menorá aparece logo depois das ofertas dos líderes das tribos. Aharon teria se sentido entristecido por não participar daquelas ofertas, e D’s lhe mostra que sua missão era ainda mais constante: acender diariamente as lâmpadas. A grandeza de Aharon não estava em um gesto público e grandioso, mas em manter viva uma luz permanente. Essa é uma bela lição para a vida judaica: há momentos de grandes celebrações, mas a santidade verdadeira se revela principalmente na fidelidade diária.
O Talmude associa a Menorá à sabedoria. O lugar da Menorá no Mishkan indica que sua luz não representa apenas emoção religiosa, mas também entendimento, estudo e discernimento. A luz judaica é uma luz que ajuda a ver melhor: ver a si mesmo com honestidade, ver o outro com compaixão e ver o caminho da Torá com mais clareza. Por isso, acender a Menorá é também símbolo de acender a inteligência espiritual.
A Cabalá aprofunda essa ideia ao ensinar que os atos realizados aqui embaixo despertam luzes nos mundos superiores. O acendimento da Menorá não é apenas um gesto técnico ou ritual; é uma ação que conecta o mundo físico ao mundo espiritual. As sete lâmpadas podem ser compreendidas como diferentes formas de servir a D’s: amor, temor, beleza, perseverança, humildade, vínculo e aceitação do Reino divino. Cada chama tem sua direção, mas todas pertencem a uma única Menorá. Assim também acontece com o povo judeu: há muitas almas, muitos caminhos e muitas sensibilidades, mas todos devem estar ligados à mesma fonte de santidade.
Ramban (Rabi Moshé ben Nachman) entende que a Menorá possui uma dimensão que vai além do serviço no Mishkan. A luz confiada a Aharon aponta para uma continuidade espiritual na história de Israel. Mesmo quando o Templo já não está de pé, a ideia da Menorá permanece viva. Cada geração recebe a tarefa de reacender a luz da Torá em seu próprio tempo, enfrentando seus desafios sem abandonar a memória, a fé e a responsabilidade.
A parashá, no entanto, não fala apenas de luz. Ela também apresenta crises: o povo reclama, sente saudade do Egito, demonstra impaciência e transforma a liberdade em peso. Isso revela uma verdade profunda: sair fisicamente do Egito pode acontecer rapidamente, mas retirar o Egito de dentro da alma exige uma caminhada longa. Behaalotechá mostra que a elevação espiritual não elimina imediatamente as fraquezas humanas. A luz precisa ser acesa justamente porque há escuridão, cansaço e confusão no caminho.
Nesse contexto, a figura de Moshé se destaca. A Torá afirma que ele era extremamente humilde. Sua liderança não se baseia na vaidade nem na imposição, mas na escuta, na paciência e na entrega. Moshé é uma liderança que não apaga a luz dos outros para brilhar sozinho. Pelo contrário, ele conduz o povo para que cada pessoa encontre seu lugar diante de D’s. A verdadeira liderança espiritual não é aquela que domina, mas aquela que ajuda outras almas a se elevarem.
A Haftará de Behaalotechá retoma diretamente a imagem da Menorá. O profeta vê uma Menorá de ouro alimentada por azeite, ao lado de duas oliveiras. A mensagem central aparece na conhecida frase: “Não por força, nem por poder, mas pelo Meu espírito”. Essa visão profética dialoga profundamente com a parashá. Tanto Aharon, no deserto, quanto a geração da reconstrução em Zechariá aprendem que a obra sagrada não depende apenas de força humana, posição social ou poder político. A luz verdadeira é sustentada pelo espírito de D’s.
O Malbim (Rabbi Meir Leibush ben Yehiel Michel Wisser) explica que a reconstrução espiritual de Israel não se realizaria por violência ou força militar, mas por uma energia interior concedida por D’s. Essa interpretação ilumina também as reclamações do povo no deserto. Quando a pessoa se deixa dominar pelo medo e pela nostalgia do passado, perde a capacidade de perceber a luz do presente. A Haftará ensina que a restauração vem quando o povo aprende a confiar numa força mais profunda do que o poder visível.
Rav Avraham Yitzchak Kook interpreta a Menorá como símbolo das diferentes formas de sabedoria e iluminação. As sete lâmpadas representam caminhos diversos, mas todos pertencem ao mesmo candelabro. Essa visão é especialmente importante para a vida comunitária. A unidade não exige que todos sejam iguais. Pelo contrário, uma comunidade se torna mais luminosa quando cada pessoa oferece sua chama particular em direção a uma finalidade comum e sagrada.
Assim, Behaalotechá ensina que acender luz é uma responsabilidade diária. Aharon acende a Menorá; os levitas assumem o serviço; aqueles que perderam o primeiro Pêssach recebem, por meio do Pêssach Sheni, uma segunda chance; Moshé lidera com humildade; e Zechariá anuncia que a reconstrução virá pelo espírito de D’s. A parashá inteira parece afirmar que, mesmo no deserto, mesmo entre queixas, quedas e incertezas, ainda é possível elevar a chama.
A grande mensagem de Behaalotechá é que a luz judaica não nega a dificuldade, mas a atravessa. A Menorá não foi acesa em um palácio, mas no Mishkan erguido no deserto. Isso significa que a santidade não depende de condições perfeitas. Quando há Torá, humildade, perseverança e espírito, até o deserto pode se tornar lugar de iluminação. A chama que Aharon acende continua sendo um chamado para cada geração: elevar a própria luz, iluminar o próximo e transformar a caminhada em serviço sagrado.
Shabat Shalom Umevorach!
Referências
● Torá: Bamidbar/Números 8:1–12:16.
● Haftará: Zechariá/Zacarias 2:14–4:7.
● Talmude.
● Rashi.
● Ramban.
● Zohar.
● Malbim.
● Rav Avraham Yitzchak Kook.

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