Parashat Chukat–Balak
- Marcos Wanderley

- 25 de jun.
- 3 min de leitura
Torá: Números 19:1 – 25:9
Haftará: Miqueias 5:6 – 6:8
A união das parashiot Chukat e Balak cria um contraste surpreendente. Em Chukat encontramos leis que desafiam a lógica humana, como a da novilha vermelha (Pará Adumá), enquanto em Balak vemos um rei e um profeta tentando compreender e controlar o destino por meio da razão, da política e da magia. Juntas, essas duas porções nos ensinam sobre os limites da compreensão humana diante da vontade de D’s.
A palavra “Chukat” deriva de chok, um decreto divino cuja razão profunda não é totalmente acessível à mente humana. O exemplo clássico é a novilha vermelha, que purifica os impuros e, paradoxalmente, torna impuros aqueles que realizam o ritual. Rashi cita a tradição segundo a qual até o rei Salomão, famoso por sua sabedoria, reconheceu não ter alcançado plenamente o significado desse mandamento.
Logo depois, a narrativa nos apresenta a morte de Miriam e a falta de água no deserto. Os comentaristas observam que o poço que acompanhava Israel existia por mérito dela. A sequência não é casual: a Torá ensina que nem tudo aquilo que sustenta a vida é imediatamente visível. Muitas vezes percebemos o valor de uma pessoa ou de uma bênção apenas quando ela nos falta.
Em seguida ocorre o episódio das águas de Merivá. Moisés e Aarão são impedidos de entrar na Terra Prometida. O episódio demonstra que quanto maior a responsabilidade espiritual, mais elevada é a exigência moral. O líder não é julgado apenas por suas intenções, mas também pelo impacto de seus atos sobre a comunidade.
Na Parashat Balak surge a figura de Balaão. Contratado pelo rei Balak para amaldiçoar Israel, ele acaba pronunciando algumas das mais belas bênçãos da Torá. Entre elas está a famosa frase: “Mah tovu ohalecha Yaakov, mishkenotecha Israel” — “Quão boas são as tuas tendas, ó Jacó, e as tuas moradas, ó Israel”.
O comentário de Ramban destaca que Balaão percebeu algo que nem sempre os próprios israelitas enxergavam: a força espiritual do povo não estava em exércitos ou riquezas, mas na santidade presente em suas casas e em sua vida comunitária. A verdadeira proteção de Israel vinha de seus valores.
Um ensinamento profundo surge quando observamos que Balaão vê Israel do alto das montanhas. À distância, ele consegue perceber a beleza do conjunto. Muitas vezes, quando estamos imersos nos problemas cotidianos, enxergamos apenas falhas e dificuldades. O olhar externo, porém, revela uma história de perseverança, fé e continuidade. Esse ensinamento continua atual para toda comunidade judaica: é importante corrigir imperfeições, mas sem perder a capacidade de reconhecer as próprias virtudes.
Sob a perspectiva cabalística, Chukat representa a aceitação humilde dos mistérios divinos, enquanto Balak mostra a tentativa humana de controlar aquilo que pertence apenas ao Céu. O equilíbrio espiritual surge quando o ser humano utiliza sua inteligência ao máximo, mas reconhece que existe uma dimensão da realidade que transcende a compreensão racional.
A mensagem conjunta dessas duas parashiot é que a vida judaica se sustenta em dois pilares: a busca pelo entendimento e a capacidade de confiar em D’s mesmo quando não compreendemos tudo. Nem toda pergunta recebe resposta imediata; nem toda bênção é reconhecida no momento em que acontece. Contudo, a história de Israel demonstra que a fidelidade aos valores da Torá transforma maldições em bênçãos, obstáculos em crescimento e desafios em oportunidades de santificação.
Shabat Shalom Umevorach!
Referências
• Torá: Bamidbar (Números) 19:1–25:9
• Haftará: Miqueias 5:6 – 6:8
• Talmud Bavli
• Midrash Rabá
• Rashi
• Ramban (Nachmanides)
• Sforno
• Maharal de Praga
• Zohar
• Meshech Chochmá
• Rabino Jonathan Sacks

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